Fundamentos da Riqueza


Um tema interessante de análise é o da riqueza (para mais quando se fala tanto em "riqueza ilicita"), mais concretamente qual o fundamento da riqueza. A riqueza em si é sempre um conceito relativo, pois só existe riqueza se existirem bens escassos (por exemplo numa sociedade utópica que não existisse nenhum bem escasso, não existiria o conceito de riqueza) e, a meu ver, prende-se com o acesso a bens e serviços existentes.

Assim, a riqueza determina o grau de acesso a esses bens e serviços, sendo que as pessoas mais “ricas” são aquelas que têm um maior acesso do que as pessoas menos “ricas”. Ou dito de outra forma é a medida que permite distribuir os bens e serviços existentes.

Assim coloca-se a questão qual ou quais os fundamentos para esta distribuição? Ou dito de outra forma porque é que uns seres humanos devem ter mais acesso do que outros aos bens e serviços existentes?

Antes de abordar quais os fundamentos, gostaria de escrever uma ou duas notas sobre o conceito fundamento. Antes demais, para mim, fundamento de riqueza é algo que justifique a distribuição de bens e serviços. Essa justificação só se torna fundamento se for aceite por uma vasta maioria das pessoas que existem nessa sociedade. Também é importante realçar que normalmente este tipo de fundamento é visto como inalteravel pela sociedade embora tenha mudado significativamente ao longo da história da humanidade.

Disto isto será interessante vermos qual tem sido o fundamento da riqueza ao longo da humanidade. Assim julgo que os fundamentos passados são:

1) Timming
Nos primórdios da humanidade (quando as sociedades ainda se estavam a formar) julgo que o fundamento mais importante existente era o facto de uma pessoa ou grupo de pessoas “encontrar” determinado bem. Basicamente os bens eram de quem os encontrasse, quer estivessemos a falar de alimentos, fontes de àgua, território, etc... Como ainda existia muitos recursos a serem distribuidos, não existia uma verdadeira concorrência de bens;
2) Força
Assim que as relações se começaram a tornar mais complexas, e os bens mais “escassos”, este era o principal fundamento, isto é, o grupo que fosse mais forte sobre outro grupo seria o que teria mais acesso aos bens e serviços existentes. Nesta altura julgo que existia duas forças distintas: a fisica (o grupo mais bem preparado – armas, pessoas, etc...) e a divina (na minha opinião serviu para contrariar a segunda, ao apresentar como fundamento a “vontade” de um ser imaterial, mas reconhecidamente mais forte que qualquer ser humano, essa pessoa ou grupo de pessoas apresentava-se materialmente como possuidor de uma “força” superior às outras, permitindo que um grupo com uma força fisica inferior se superiorizasse)
3) Castas sociais
Depois de terem sido criados os primeiros grupos, muitos deles através dos fundamentos anteriores aparece a noção que determinado só grupo de seres humanos é que poderiam aceder a um maior número de bens ou serviços. A partir que começa a existir e ser aceite este fundamento começa-se a verificar o abandono ds fundamentos anteriores. Esta foi talvez uma das maiores construções humanas (para mim negativamente), pois com o aparecimento deste tipo de fundamento deixou de ser necessário constantemente fundamentar a sua riqueza, para esta estar garantida a priori. E de forma a perpetuar este conceito introduziu-se o conceito de hereditariadade, na maioria dos casos através do sangue.

Este tipo de Fundamentos não desapareceram por completo, no entanto e com o advento da mercantilização e principalmente com a Revolução Industrial, alteraram-se significativamente. Actualmente já nenhum destes fundamentos é aceite na nossa sociedade (sociedade ocidental) e foram substituidos por novos Fundamentos:

1) Esforço
Aceitamos que alguém deverá ter mais acesso a bens e serviços que outros seres humanos é porque atribuimos um maior esforço a essa pessoa que a outras a efectuar algo que é de reconhecido valor para a sociedade
2) Criatividade
Outro motivo para a aceitação da riqueza é porque reconhecemos que o que alguém faz é único e util para muitas pessas (a utilidade pode ser material ou imaterial). Normalmente este é o fundamento para a acumulação de riqueza de desportistas, por exemplo. Recohecemos que só aquela pessoa ou um grupo limitado de pessoas é que tem a capacidade de fazer algo e por isso deve ter mais acesso do que nós aos bens e serviços existentes.
3) Mérito
Embora o conceito de mérito seja ainda muito dificil de explicar (vou explorar este conceito num artigo posterior), é talvez o mais aceite na actualidade. Portanto é talvez o maior fundamento da actualidade para a riqueza e está directamente ligado a esta, quer seja de forma positiva ou negativa.
4) Risco
Um outro motivo pelo qual todos aceitamos que determinada pessoa tenha acesso a mais bens e serviços do que nós é porque reconhecemos que ele teve uma maior capacidade de perda do que nós e atribuimos valor a esse facto. Por isso aceitamos que ele tenha acesso a mais bens e serviços que os outros.

Gostaria muito de receber algum feedback do que acham destes fundamentos, pois este artigo é apenas um ensaio amador sobre os fundamentos da riqueza, isto é, baseado no meu próprio pensamento e portanto passível de cometer vários erros.

9 comentários:

ejsantos disse...

Olá Stran. Tentarei visitar o teu blogue, e deixar, de vez em quando, algum comentário inteligente. Não esperes que eu concorde! (Uma boa discussão é sempre animadora! ;-).

Anônimo disse...

Oi!

Obrigado! Será sempre benvindo! Nem eu pretendia isso. Concordo que uma boa discussão é sempre algo muito positivo!

Um abraço
Stran

Miguel Fabiana disse...

Grand'Homem !

Qual o fundamento da riqueza?

Se aceitarmos o teu pressuposto "a riqueza determina o grau de acesso a esses bens e serviços ...ou ...a medida que permite distribuir os bens e serviços existentes" eu não contesto os teus "novos Fundamentos", a não ser quando tentas explicar o "conceito de mérito" - não percebi o que querias dizer com "mérito" e proponho que o expliques, pois a coisa, assim como está pareceu-me "elitismo" ... e a cena das elites, a mim, não me parece bem!

Frequentemente costumo andar pelas montanhas e florestas, sozinho ou acompanhado, mas numa relação directa com as "origens", ie, por sítios onde não há "bens e serviços" e onde só existem "bens escassos": energia, transportes, comida, água...you name it !

Pois é lá, nessas montanhas e florestas que encontro os sentimentos mais altruístas e onde claramente o "egoísmo" não faz sentido; eu explico: onde o sentimento e a atitude de auto-preservação é mais sentido e sublinhado, em simultâneo com o respeito pelo "outro" e de partilha com o "outro". Aquilo que é definido como "egoísmo", na Cidade, na Montanha é entendido como auto-preservação, sem que esse comportamento exclua a solidariedade para com o outro, respeitando-o e se for caso para isso (numa emergência) usando, até aos limites da nossa auto-preservação, de tudo o que houver disponível e seja possível de usar, para salvar a vida...de um estranho!

Na montanha e nas florestas, partilhar o que não se tem ou comprometer a nossa sobrevivência, não é altruísmo: é irresponsabilidade para com nós próprios! Na montanha e nas florestas, partilhar o que se tem ou ajudar a garantir a sobrevivência do outro, não é altruísmo: é, numa versão mais rebuscada, garantir através de um estranho que um dia e numa eventual emergência, haja um estranho que o faça...por ti!

O "bem escasso" que existe na Montanha e na Floresta é a Vida ou a Sobrevivência e por isso reconheço o "Esforço", a "Criatividade" e o "Risco" como fundamentos para nos manter o acesso a esse bem escasso (Sobrevivência/Vida). O "Mérito" na Montanha e na Floresta, quando estamos perante "A Verdade", ou seja, aquele momento em que qualquer decisão tem influência directa e objectiva no acesso ao único "bem escasso", não serve de muito...a ninguém !

Quando costumo pensar em alguém, a primeira coisa que me vem à cabeça é: será que ia com ele/a para a Montanha/Floresta??...e não estou a pensar nele/a; estou a pensar nos bens escassos da Montanha e da Floresta! Vida e Sobrevivência! O "Mérito" não tem muita "utilidade", onde a "verdade" impera...nem a "Riqueza"!

Reformulo a tua pergunta: Qual o fundamento da riqueza?

Dou-te a minha resposta: Só possuímos verdadeiramente aquilo que damos aos outros e tudo o resto é uma ilusão...incluindo os "bens escassos"!

Um Forte Abraço,
Miguel

Anônimo disse...

Oi!!!

Excelente comentário. Bem respondendo às questões:

"... não ser quando tentas explicar o "conceito de mérito" - não percebi o que querias dizer com "mérito" e proponho que o expliques, pois a coisa, assim como está pareceu-me "elitismo" ... e a cena das elites, a mim, não me parece bem!"

Pois a "coisa" do "mérito" tem muito que se lhe diga e já fiz de proprósito. Como ainda não tinha uma definição final e como não queria demorar muito tempo a descrever algo que para este artigo em concreto resolvi "chutar" esse problema para um próximo artigo só dedicado a esse tema.

No entanto para já julgo que o mérito está de alguma maneira relacionada com os outros fundamentos e também que é relativo (para a mesma acção poderemos reconhecer ou não mérito mediante o contexto). Julgo que para já ficava por um sistema de valoração de determinada acção. Resolvi introduzir porque muitas vezes é utilizado, mas ainda não encontrei uma explicação clara.

Agora a questão de altruismo:

"...não é altruísmo: é, numa versão mais rebuscada, garantir através de um estranho que um dia e numa eventual emergência, haja um estranho que o faça...por ti!"

Por uma questão objectiva para mim eu consideraria altruismo. Isto porque temos de definir uma diferença entre "egoismo" e "altruismo" sob pena de juntarmos duas realidades opostas.
Para mim altruismo não significa que não tenhas um ganho (qualquer forma de altruismo dá necessariamente um ganho individual à pessoa que o faz), mas sim que tens uma perda objectiva. Por exemplo já me disseram que dar a vida por um filho não é altruismo, ora isso para mim não é verdade. Pois se morres já não vais ter nenhum beneficio futuro.

Bem agora tenho de admitir que deste um exemplo um bocado "extremista" e que no teu dia a dia as coisas já não assim tão lineares. E tens de verificar uma coisa mesmo para ir para a montanha tiveste que ter acesso a outros bens "escassos" afinal não vais despido e a pé, assim como presumo que levas alimentos, ou seja tiveste de ter acesso aos bens num local onde se calhar já faz sentido falar-se de "mérito".

Nem toda a gente tem possibilidade de aceder à Montanha e a minha duvida é porquê?

Já agora gostei muito do teu exemplo pois aponta para uma coisa que é sem duvida interessante. É muitas vezes nas camadas mais pobres que existem mais exemplos de actividades "altruistas" isto é, onde há o reconhecimento de que partilhando recursos se atinge um melhor bem estar.

Melhores Cumprimentos,

Stran

Miguel Fabiana disse...

Camarada Stran,

O Mérito como um sistema de valoração de determinada acção, parece-me uma boa ideia, mas também me parece que mais tarde ou mais cedo, a coisa vai descambar em "Moralismos" e nisso...eu não entro nem invisto tempo! Mas antes de decidir, entrar ou não, vou aguardar que exponhas melhor essa cena do "Mérito".

Filhos...sobretudo Filhos/as não é uma "cena" de fácil ou simples dissertação! Morte...é outro tema que não é fácil: há muitas maneiras de morrer, menos "úteis" para o próprio do que a "morte física". Já ouviste falar em "morte psíquica" ou quando o conceito de "outro" desaparece completamente de dentro de nós?!? é uma maior tragédia do que a "morte física"! Mas deixemo-nos de "mortes"; Concretamente qualquer forma representativa desse conceito (morte), não ajuda nem resolve absolutamente nada! Definitivamente!

Por acaso, quando vou para a Montanha faço questão de reduzir a quantidade de "bens escassos" ás costas...por causa das minhas costas! dei cabo delas, demasiado cedo, na minha vida!

Toda a gente tem possibilidade de aceder à Montanha! A eventual parnafernália que pretensamente é "necessária", só resulta da abordagem que se pretende fazer à "Montanha": no meu caso é "ir para lá e aproveitar o caminho, a paisagem, o tempo e o espaço" que é oferecido.

Parece-me que concluímos bem a abordagem à "Riqueza": só partilhando se atinge um melhor bem estar comum !

Verdadeiramente "nosso" é a nossa Vida e o que fazemos com ela! De resto, muito pouco ou nada "possuímos"...a não ser aquilo que "damos" aos outros!

Abraço,
Miguel

Stran disse...

Miguel,

Só um pequeno àparte:

"...a coisa vai descambar em "Moralismos" e nisso...eu não entro nem invisto tempo..."

Sim e não. Mas tenho de confessar que não tenho de dizer que a maior parte do que digo é "moralista", isto é, é assente num conjunto de valores (não dogmas) articulados por mim. Mas não quero dizer com isto que quero impor a minha "moral". Para mim cada pessoa tem a sua e faz com ela o que quer.

Ultimamente atirasse esta palavra como se fosse um "insulto" quando na realidade somos todos "moralistas", as pessoas mais perto da amoralidade são os psicopatas e mesmos esses têm uma "moral" muito própria.

Miguel Fabiana disse...

Camarada,

É verdade: não tens de dizer que a maior parte do que dizes é "moralista".

"Moralismo" para mim, é quando alguém pretende transpor uma emoção/sentimento, para o lado da razão, ie quando alguém pretende afirmar e convencer outros de que determinadas emoções/sentimentos estão sempre correctos e outros diferentes, por o serem, estão errados.

Porque a "Moral" é mais do que isso e aquilo que o senso comum entende como Moral, eu não consigo aceitar como "métrica" para coisa nenhuma.

Respeito, aceito e defendo que cada um tenha o seu conjunto de valores (mesmo que sejam dogmas) articulados de uma dada forma (mesmo que seja singular) que isso não implica necessariamente que estejam certos ou errados ou...as duas coisas ao mesmo tempo: decorrem da singularidade (em contraposição de um caso particular existente num conjunto de regras gerais...) de cada indivíduo.
O Problema começa quando alguém pretende impor regras aos outros e no caso particular dos Moralismos, regras emocionais ou de regulação de sentimentos - a coisa remete logo para Inquisições e cenas parecidas...

O Mérito é um bom conceito, mas facilmente e regra geral costuma sempre descair para o lado dos Moralismos...mas aguardo pela tua exposição, visto que eu não me revejo no âmbito dos pre-conceitos.

Abraço,
Miguel

Miguel Fabiana disse...

"as pessoas mais perto da amoralidade são os psicopatas e mesmos esses têm uma "moral" muito própria."

Segundo percebi, das minhas interacções com a Psicologia, como leigo e curioso, a única coisa que define um psicopata é exactamente como um "ser Moral" (interpretação selvagem), ie, apenas reconhece a fantasia e é incapaz de viver a Realidade, criando para isso um conjunto de "Moralidades" que verdadeiramente não inclui o "outro". Sendo o Moralismo uma forma fantasiosa de o psicopata reconhecer o outro no mundo fantasioso em que o psicopata vive...numa interpretação extremamente selvagem, o psicopata é o maior e o "melhor" moralista que existe: nunca reconhece o outro, nem nele próprio; apenas a fantasia e o os conceitos fantasiosos sobre esse desconhecido, para ele...que é o "outro"!


...digo eu que não percebo nada de psicologia !

Stran disse...

Companheiro Miguel,

"...digo eu que não percebo nada de psicologia !"

Não percebe nada mas percebe mais do eu.

Quanto ao "moralismos" não era no sentido de "convencer outros de que determinadas emoções/sentimentos estão sempre correctos e outros diferentes, por o serem, estão errados."

"...eu não consigo aceitar como "métrica" para coisa nenhuma."

Essa vai ser a parte mais dificil e interessante do tema de "Merito". Sendo ele dependente de cada pessoa, julgo impossível determinar-se um sistema quantitativo para este fundamento, e não sendo quantitativo e sendo subjectivo será que é exequivel um sistema baseado no "mérito", isto é não será a "Meritocracia" uma utopia identica ao Comunismo?

"O Problema começa quando alguém pretende impor regras aos outros e no caso particular dos Moralismos, regras emocionais ou de regulação de sentimentos..."

Isto concordo. Aliás a "imposição" é algo que tenho bastantes anti-corpos. Gosto muito de debater, de expor o meu ponto de vista e de nesse processo estar constantemente a reavaliar a minha posição inicial e a tentar compreender a posição de alguém que tem uma opinião diferente ou contrária à minha.