Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Incompetentes!!!

Não, não falo dos “cornos” de Manuel Pinho, nem de politicos e afins. Também não é sobre economistas e académicos (parece que afinal não é a mesma coisa) ou de manifestos e contra-manifestos.

Falo sim de gestores, directores, patrões e patronato ou melhor de todos com responsabilidade de decisão numa empresa, (embora obviamente não sejam todos incompetentes) e dos defensores de uma liberalização do “mercado” de trabalho (desculpem as aspas mas para mim pessoas nunca vão ser produtos transacionáveis) e da actual lei laboral.

A actual lei laboral já é suficientemente flexivel para resolver os problemas que estas pessoas costumam colocar como fundamento para uma ainda maior flexibilização do trabalho e da lei laboral. Julgo que o primeiro motivo para este pedido é a completa ignorância do Código de Trabalho. Aliás gostaria de desafiar os leitores ou comentadores a colocarem alguma situação que gostariam de ver contemplado na legislação laboral ou que concretizem uma critica. E a ignorância pode ser por nunca terem lido o código ou por não conseguirem compreender o que está lá escrito. O segundo motivo é pela sua expressa incompetência em lidar com problemas laborais e manifesta incompetência de gestão.

Se verificarmos as qualificações destas pessoas rapidamente verificaremos que parte dessa incompetência deriva do facto de serem pessoas inqualificadas para exercer essas posições. Outra parte dessa incompetência deriva do facto de essas pessoas não perceberem que a maioria dos problemas nesta area são motivados não pelo curto prazo mas pelo longo prazo. Isto é, o problema não nasce por exemplo na altura em que é necessário reestruturar (curto prazo), mas sim da relação que foi criada (ou na maioria dos casos não foi criada) ao longo dos anos de trabalho (longo prazo). Se essa relação foi criada e trabalhada, então não existirá nenhum problema no curto prazo.

Assim, quando ouço alguns a pedir mais liberalização do “mercado” de trabalho, só vejo alguém a pedir que se premeie a incompetência. Algo que manifestamente me parece irracional!

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Despedir

Começam com 5 segundos de silêncio. Cinco segundo que demoram uma eternidade. Nesses segundos nada se diz, ajeitam-se papéis, tem-se uns ultimos pensamento. Há minha frente a pessoa é toda ela nervos e ansiedade. Em igual medida tenta colocar no rosto uma face de calma absoluta, mas é traida pela suas mãos irrequietas e o seu olhar que teima em pousar em lado nenhum.

Os meus pensamentos derivam entre a justificação racional e o tem de ser. Respiro fundo mentalmente e sei no meu inconsciente que os meus pensamento são sem significado e sem serem sentidos.

E depois quebra-se o silêncio, diz-se ao que se vem, é se transparente e explica-se tudo o quanto é possível explicar. Então as mãos acalmam e os olhos focam a sua atenção em nós. Tudo muda nesse instante com essas palavras ditas e escritas, entregues em forma de carta.

O nervoso já não existe e ansiedade à muito que desapareceu. Em seu lugar ficam o rosto de aceitação à nova realidade, uma aceitação de impotência perante a nova realidade e no seu olhar uma tristeza que tenta disfarçar. Um tristeza pelo fim de algo, de algo que demorou muito a construir e que já não se pode recuperar.

Terminamos com votos de esperança, ultimos desejos de uma realidade irrepetível...

Sábado, 27 de Junho de 2009

Irão para onde?

Há uns anos anos atrás quando “olhava” para o Irão via um país de fundamentalistas e extremistas Islâmicos. Para mim Khomenei era a imagem de qualquer Iraniano e todas as mulheres andavam de Burqa. Isso era o Irão para mim, mas depois um filme mudou por completo a minha visão deste país e despertou o meu interesse que até aí era superficial. Falo obviamente de Persepolis. Ora tudo o que se passava nesse filme não se enquadrava na imagem que eu tinha criado desse país. Aliás a própria existência desse filme e dessa história seria uma impossibilidade caso a minha anterior imagem tivesse correcta.

Obviamente, curioso como sou fui tentar conhecer melhor o país e os seus habitantes. E encontrei uma imagem completamente diferente daquela que tinha criado anteriormente. O Irão não é um país qualquer, nem no mundo, nem naquela região. É um país historico e com uma cultura milenar, um mosaico de tendências e visões e um verdadeiro melting pot do mundo muçulmano. E em termos politicos consegue também ser muito original, pois é ao mesmo tempo uma teocracia e uma democracia. Aliás se aprofundarmos o sistema politico iraniano rapidamente verificamos que na forma não é muito diferente da nossa, sendo que o papel que nós damos aos juizes eles dão aos mullahs (o que faz toda a diferença, mas que é natural numa teocracia).

Mas estas contradições não terminam aqui, pois sendo um regime muito severo e tradicionalista, é também o país muçulmanos em que existem mais ONG que defendem a igualdade entre as mulheres.

Posto isto chegamos então ao presente e facilmente verificamos que estas manifestações não são fruto de algo espontaneo, mas fruto de uma cultura forte e de um passado recente de um crescimento do pensamento liberal (não no sentido economico desta palavra) dos mais jovens. As eleições foram apenas o rastilho para o que já se sentia há muito tempo, uma separação crescente entre fundamentalistas religiosos e uma parte da população mais liberal.

O choque era inevitável e está acontecer. No entanto para quem está de fora, este tema é muito sensível, pois se é verdade que neste momento luto pelo sucesso dos protestantes (que muito provavelmente teriam a capacidade de tornar o Irão num país muito importante a nível internacional) mas sei também que os países e os seus líderes não poderão fazer muito sob pena de retirar força aos protestos e protestantes.

Resta-me apenas esperar que tenham sucesso e não deixar de escrever a minha admiração por quem, sob pena de morte, tem a coragem de ir para a rua e lutar pelo que acha justo, por um país mais livre e democrático. Possivelmente estamos a assistir a um marco histórico, mas como tudo nesta vida ainda são as incertezas que marcam a actualidade.

Se é certo que o Irão poderá tornar-se numa sociedade mais aberta e livre, também é verdade que o actual regime ainda conta com muitos apoiantes, pelo que ainda não se sabe para onde penderá o fiel da balança. Resta-me apenas questionar: Irão para onde?

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Prémio Lemniscata






Só me posso sentir muito honrado, e visivelmente contente, quando alguém decide atribuir a este espaço um prémio. Esse sentimento aumenta muito quando o intuito do prémio é como este. E depois aumenta muito mais quando é atribuido por alguém como o Carlos Santos que é simplesmente o autor do excelente blogue "O valor das ideias" (blogue que já tinha falado anteriormente) que ainda esta semana foi mencionado na crónica do Rui Tavares no Público desta quarta feira. Assim compete-me agora escolher 7 blogues para atribuir este prémio. Deixo então abaixo o texto oficial do prémio, e como não podia deixar de ser, após isso farei um pequeno texto a justificar a minha escolha:



“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."
Sobre o significado de LEMNISCATA:LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.”Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores(In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)
Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.
Texto da editora de “Pérola da cultura”
Seguindo as regras este prémio é para ser atribuído de seguida a 7 blogues. Assim, sem qualquer ordem prévia:










Agora, como tinha dito anteriormente vem a motivação da escolha:


O Cartel - Este espaço não é um blogue é um autentico serviço público. É constituido maioritariamente por professores e o seu trabalho é simplesmente fantastico. Ligado obviamente à temática da Educação, não só podemos encontrar temas especificos ligados à carreira de docência como também opinião de excelente qualidade. É um perfeito exemplo de como a blogoesfera pode ser algo extremamente positivo. A todos os seus autores os meus mais sinceros e enormes parabéns.


Os pássaros não têm nariz - Este é um prémio atribuido pelo passado (recente), o presente e o futuro (que julgo que será brilhante). É um blogue que foge aos parametros normais do ritmo da blogoesfera. O autor não escreve com regularidade, mas quando o faz, faz com uma elevada qualidade. É uma lufada de ar fresco (ainda recente na blogoesfera) mas que merece ser acompanhado por todos. É uma aposta de futuro, mas uma aposta certa. Sem duvida um blogue para quem priveligia a qualidade à quantidade.


O Afilhado - Só recentemente é que tive conhecimento deste blogue, mas foi uma optima supresa. Quem acompanha o blogue e os meus comentários por lá verá que a maioria das vezes não concordo com o que é dito, e por várias vezes as discussões prolongam-se bastante. Mas a qualidade não se mede pela concordância da opinião. Este é um espaço de qualidade (em que os temas são muito variados e ao sabor do autor, o que admiro sempre) com um autor de qualidade. Além disso, por causa das caracteristicas do autor é um espaço de debate franco e aberto, onde se pode efectivamente discutir o tema em si!


Speakers Corner Liberal Social - Este é um blogue de um movimento politico. No entanto existe algo que os distingue dos outros, é que é um blogue e funciona como um blogue! A maioria dos blogues que se inserem em movimentos ou partidos politico são meros acrescentos quase ficticios da máquina partidária. Este espaço não é assim, e isso faz dele unico. É um espaço dos autores e não do movimento, o que o torna quase, senão mesmo, unico em Portugal. Assim, além da divulgação do Movimento em si é um espaço onde podemos saber a opinião efectiva dos seus membros mesmo que esta seja contra a posição oficial do movimento. Neste espaço a liberdade de expressão não é um mero "chavão" mas sim algo que é praticado efectivamente. Sem duvida um espaço merecedor deste prémio.


Fiel Inimigo - para quem me acompanha ou acompanha este blogue, esta poderá ser a nomeação mais estranha. Mas este prémio vai principalmente para uma comentadora e não para os seus autores. Falo da ML, obviamente! Julgo que foi neste espaço que a conheci e tem sido, além do mais uma lição para mim. E como, infelizmente para nós, ela não tem blogue, escolho este espaço pois os seus comentários valem ouro. Desculpem todos os outros comentadores, mas a ML é sem duvida a number one na minha lista, numa simples palavra ela é um espectaculo! Pelo que sabe, pela personalidade, pela maneira de encarar os debates, pela maneira como estrutura o seu comentário, e por tudo mais, ela por si só vale este prémio.

Mas atenção o espaço em si também é unico na blogoesfera portuguesa, não tanto por causa da qualidade dos seus artigos mas porque autores com aquelas opiniões e com o tipo de argumentação que utilizam acabam sempre por censurar os comentadores com quem eles não concordam, algo que nunca aconteceu ali. Pode parecer pouco, mas acreditem, já passei por muitos blogues parecidos e realmente este é um espaço unico nesse sentido.


O Valor das Ideias - Bem já disse anteriormente a minha opinião sobre este blogue. Não sei se foi pelo tempo que o autor passou em Inglaterra, se foi por outro motivo, mas a verdade é que criou um blogue à moda "estrangeira". Isto é, um blogue onde os artigos e as posições são fundamentados e onde uma pessoa aprende muito. Em poucas palavras, para não me alongar muito, é um blogue à Paul Krugman! Uma referência sem duvida da blogoesfera portuguesa.


Ladrões de Bicicletas - Outro blogue do qual já tinha falado anteriormente. Tenho de confessar que já acompanho este blogue desde que eles ainda só roubavam "triciclos" e uma coisa é certa eles só conseguem surpreender pela positiva. Este blogue é tudo o que um blogue deve ser!

Sábado, 20 de Junho de 2009

Aforradores Lusitaniae

Sempre me vez alguma confusão a figura central do hommo economicus (HE) na teoria económica. Para além da grande “querela” sobre o egoismo vs altruismo, existia outra coisa que me fazia muita confusão, ou como eu gosto de dizer me provocava comichão nos meus neurónios. Falo do comportamento esperado desta figura central da teoria. O HE era verdadeiramente um heroi da era moderna, pois por causa dele e do seu comportamento todos os problemas ficavam resolvidos. O HE é no entanto apresentado como um ser amarrado às correntes do Estado e para poder agir de forma heróica só tem de se soltar (ou ser solto). Assim o Estado estava para HE como o Kriptonite está para o Super-homem.

Uma vez solto, a sua acção, o seu dinamismo, a sua procura em se superar e fazer as coisas melhor, motivados pelo seu interesse próprio, fariam com que um verdadeiro Céu fosse criado na Terra, todos os problemas fossem resolvidos e vivessemos felizes para sempre. O melhor desta história é que, ao contrário do Super-homem que é único, existem milhões de HE na Terra, pois os HE são os Seres Humanos.

Ora o que me faz muita confusão é a realidade que vivo, ou seja, a realidade portuguesa e dos portugueses. Aqui no nosso cantinho, sempre que via a diminuição do Kriptonite (ou seja Estado), eu não via os HE a aparecer, mas algo que até agora não conseguia identificar. E olhava para os locais onde supostamente estes HE habitam (os mercados) e não funcionavam (por exemplo: o mercado imobiliário, quer na sua vertente de arrendamento, quer na sua versão de venda – embora seja valido para a generalidade dos empresários) como seria de esperar. A justificação habitual que nos contam é que Portugal é um país rico em Kriptonite e por isso é que os HE são fracos. Honestamente, para mim sempre foi um desculpa de mau pagador...

Ora, para mim, a razão mais obvia seria uma razão cultural, mais propriamente um “atraso cultural” sistemático dos portugueses. No entanto julgo agora que estava errado. Motivado por uma pergunta do Tiago Ramalho, pensei mais no assunto. E julgo ter encontrado uma pista para conseguir compreender melhor a nossa realidade: os AFORRADORES LUSITANIAE (AL).

Ou seja, em Portugal não existem HE, ou o seu numero é muito baixo. A figura central de uma teoria economica aplicada à realidade portuguesa deveria ser centrada nesta figura de AL e não na figura anglosaxónica de HE. Obviamente esta afirmação pede a seguinte pergunta: “Mas que raio são os AFORRADORES LUSITANIAE?”

Os AL são pessoas cuja principal motivação é a criacção de uma poupança que lhes dê um rendimento mais ou menos certo, que permita ter um nível de vida que o AL considere aceitável. Assim o objectivo do AL é atingir um determinado patamar de rendimento e não o incremento constante desse rendimento como acontece com os HE. Por outro lado, e ao contrário do HE, o AL não é “geneticamente” concorrencial, como o seu foco de atenção está dependente de atingir determinado rendimento, o que lhe interessa é a garantia desse rendimento e não o incremento do mesmo. Ou seja, mais rapidamente o AL chega a um pacto de não-agressão com outro AL (de forma a minimizar o risco e garantir assim o rendimento pretendido) do que entra em “guerra aberta” como os HE fazem. Finalmente outro aspecto muito importante, é o facto de se comportar como um aforrador, isto é coloca o dinheiro em determinado activo, e fica apenas à espera de receber os juros sem precisar de se esforçar, o que leva a que o AL não seja inovador.

Desta forma, se pensarmos no típico senhorio, dono de café, empresário de uma pequena empresa e demais exemplos da fauna económica verificamos que eles se comportam exactamente como um AL.

E como apareceu este AL? Bem, não encontrei em nenhum livro a resposta a esta pergunta, mas nas sapientes palavras do meu pai (que embora tenha apenas a 4ª classe a sua sapiência vinda de uma vida cheia de experiência em muito ultrapassa a deste seu pequeno filho). Como o meu pai me conta, antigamente não existiam reformas. Assim a grande questão da vida de uma pessoa passava por saber como é que conseguiriam sobreviver quando já não tivessem forças para trabalhar. Esta necessidade guiava as pessoas para, ao longo das suas vidas, fazerem algumas poupanças para: (a) comprar ou construir uma casa para poderem alugar e ter um rendimento fixo, (b) abrir um pequeno negócio (por exemplo um café, restaurante, oficina) que trouxesse um rendimento fixo para ele e a familia. Obviamente outra solução seria fazer muitos filhos e esperar que eles o sustentassem, mas ficar dependente desta solução era demasiada arriscada e criava uma ligação de dependência considerado contra natura pelo tipico português.

Dito isto julgo que seria muito interessante pegar nesta figura (o AL) e simular o que acontece a uma sociedade de AL em que sejam aplicadas soluções da teoria neoclássica economica. Isto é, a que conclusões chegará a teoria económica se, em vez de aplicar o HE, aplicar o AL?

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Crónica de um ex-fumador

Sei que em tempos comecei esta crónica, mais propriamente quando a nova lei do tabaco entrou em vigor, e não a continuei pela razão mais óbvia: voltei a fumar.

Foi apenas uma das muitas tentativas frustradas de deixar de fumar. Basicamente já utilizei quase todos os métodos que existem, desde a utilização da passagem de ano, até choques eléctricos (não se assustem, tinha o efeito de acupunctura).

E, também por razões óbvias, retomo esta crónica: deixei de fumar. No entanto ainda é uma decisão demasiado recente para saber se resultará ou não. Peço desde já desculpa ao leitores habituais por, muito provavelmente, nestes próximos dias falar apenas sobre este tema.

Neste momento em que escrevo, ainda tenho bastante nicotina no meu corpo, pelo que ainda não começou a parte física mais complicada. Isso vai ficar para logo mais tarde. Eu sei que para quem nunca foi muito viciado (ou sequer viciado) é muito difícil de entender a enorme dificuldade que é deixar de fumar, a dificuldade de fazeres um compromisso contrário ao que o teu corpo e, principalmente, a tua mente pedem.

Esse é um dos objectivos desta crónica, que ao descrever o que me vai acontecendo, ao escrever o que penso possam passar a compreender um pouco melhor.

Não sei se vou ter sucesso, neste momento em que escrevo julgo que sim, que este foi o meu ultimo dia enquanto fumador, no entanto como em tudo na vida, não existe nenhuma garantia de sucesso…

Domingo, 7 de Junho de 2009

Europa ferida de morte?

Não sei se concordo totalmente com o titulo deste artigo, mas parece-me obvio que a União Europeia sofreu um duro golpe nesta noite. Julgo mesmo que não é exagero dizer que o maior ganhador desta noite são os USA (comentarei sobre isto mais abaixo).
O primeiro golpe duro foi sem duvida a abstenção, que uma vez mais bateu o record, sendo particularmente alta nos paises recém entrados. Ora este é um duplo sinal negativo, o primeiro para os politicos, pois claramente afastaram o eleitorado das questões europeias, o segundo para os eleitores que assim comprovam que afinal não se interessam assim tanto por processos mais democráticos na União Europeia. Qualquer que seja a leitura a verdade é que cada vez mais a União Europeia é sentida como algo distante e quanto mais distante ela ficar mais fraca ela fica.
Este distanciamento foi aproveitado por alguns movimentos mais radicais, que viram o seu peso ser reforçado nestas eleições, nomeadamente os movimentos e partidos nacionalistas. E isto é deveras preocupante, não só porque estes são anti-europeus, como a nível doméstico começam a ser vistos como forças legitimas do cenário politico, o que significa, em tempos de crise uma preocupação acrescida para todos nós (como a Alemanha Nazi bem demonstrou o nacionalismo num país estrangeiro não é apenas um problema para esse país).
Para além destes cresce muito os partidos eurocepticos (que provavelmente ultrapassaram os 100 deputados) pelo que os processos no Parlamento europeu serão ainda mais dificeis que anteriormente.
Depois, e também preocupante, é o facto de os partidos do arco da construção europeia todos eles terem perdido deputados, ou seja o PSE, a ALDE e o PPE. No entanto o PPE é o vencedor da noite pois é o partido com mais deputados no parlamento europeu (conquistou 267 contra os 288 em 2004/2007). O que demonstra o quão afastados ainda estamos da União Europeia. Nos ultimos anos têm "chovido" criticas quanto à actuação da União Europeia. Ora o expectavel era que o Partido que governou os destinos na União Europeia fosse penalizado e perdesse a maioria no Parlamento, no entanto tal não aconteceu e na maioria dos países até saiu reforçado. Não esquecer que nestas eleições o PPE acabou por perder um dos seus elementos de peso: o Partido Conservador Inglês, que, se não estou enganado vai criar um partido de "eurocepticos". Desta forma na melhor das hipoteses a União Europeia vai continuar a trabalhar como trabalhou até agora.
Bem posto isto, porque é que eu digo que os USA são os maiores vencedores? Bem, do cenário que tracei é liquido que a União Europeia ainda vai trabalhar mais "lentamente", o que ainda dará mais força aos Eurocepticos. Neste cenário verificaremos uma muito provável desagregação da União Europeia e do projecto europeu. Ora se é verdade que a União Europeia começava a consolidar o seu espaço e a "ameaçar" a hegemonia dos USA também é verdade que esse trabalho poderá ser completamente infrutifero se não tiver seguimento. Pior é o facto de que vivemos uma epoca de crise profunda em que as oportunidades escasseam, e enquanto a União Europeia vai ficar os próximos tempos a pensar no seu futuro, os USA vão se recompor e aproveitar todas as oportunidades perdidas pela União Europeia.
Numa Era dos grandes blocos (China, India, USA, América Latina) a União Europeia caminha a passos largos para a sua desagregação, e muito honestamente, neste cenário é verdadeiramente estupido os discursos que aconteceram em Portugal!
P.S. Resultados podem ser verificados aqui e aqui.