Outras Escolhas

Há pouco tempo escrevi um post sobre escolhas, no entanto, e como afirmei na vida tudo é feito de escolhas. Gostava de olhar para alguns números, sem preconceitos, nem demagogias. Nomeadamente hoje gostaria de falar sobre o lucro de algumas empresas nomeadamente nas empresas do PSI-20.

Fui à procura para saber quanto é que tinha sido o lucro das maiores empresas no ano de 2007. Encontrei então esta noticia onde pude saber, aproximadamente o lucro:

- 5.500.000.000 Eur.

É um numero bom (afinal vivemos numa altura que não se questiona o lucro), no entanto ele foi produzido pois os decisores das empresa assim o quiseram. Neste caso decidiram distribui-los aos seus accionistas (quer por via de dividendos, quer por via de valorização de acção).

O que é que poderia acontecer caso a escolha deste decisores tivesse sido de forma diferente?

Para o caso explorei o facto de o que poderia acontecer caso distribuissem 50% desse valor (2,75 mil milhões de euros) em forma de prémio pelos seus colaboradores. Mais uma vez fui à procura do número de empregados e cheguei a esta noticia. Sendo que não tinha o valor de todas, fiz uma média doas valores e arredondei para cima (em média utilizei o valor de 15.000 empregados por empresa) chegando ao valor de 300.000 empregados no total. Ora se estes decisores tivessem escolhido esta ultima opção distribuiriam por empregado, cerca de:

- 9.166,67 Eur;

E enquanto para alguns isto não é nada, para a esmagadora maioria seria uma lufada de ar fresco nas suas contas pessoais e uma motivação extra para trabalharem mais e melhor.

9 comentários:

Tarzan disse...

«É um numero bom (afinal vivemos numa altura que não se questiona o lucro), no entanto ele foi produzido pois os decisores das empresa assim o quiseram»

Alto lá! Os lucros não se decidem. Tem de se trabalhar para se obterem.

Quanto à distribuição, há empresas do PSI 20 que distribuem uma boa parcela de lucros aos seus trabalhadores. Não sei se estou a cometer uma inconfidência, mas sei que na REN a distribuição de lucros costuma ser generosa. É claro que as chefias terão provavelmente direito a muito mais que os estafetas...

Nesta matéria, há sempre um certo preconceito em relação aos accionistas pelo facto de eles não intervirem directamente na actividade da empresa mas receberem os lucros na mesma. Visto assim parece "dinheiro-fácil". Mas olhe que não deve ser assim tão fácil. A empresa tem vantagens em distribuir lucro aos accionistas e aos trabalhadores (embora essa decisão caiba sempre aos accionistas maioritários). Aos trabalhadores porque lhes eleva a motivação e os fideliza. Aos accionistas porque o seu objectivo em deter títulos é precisamente obter ganhos financeiros que são, em parte, obtidos pelos dividendos. Transferir os lucros só para os trabalhadores ou só para os accionistas tem o seu preço e pode não ser boa política. "Não ponhas os ovos todos no mesmo cesto".

Stran disse...

"Alto lá! Os lucros não se decidem. Tem de se trabalhar para se obterem."

Trabalhar e muito, eu sei. No entanto o lucro é decidido, no sentido que existe uma decisão para determnar o montante final, p.e. de qual o nível de prémios (caso este aumente o lucro diminui).

"Nesta matéria, há sempre um certo preconceito em relação aos accionistas pelo facto de eles não intervirem directamente na actividade da empresa mas receberem os lucros na mesma. Visto assim parece "dinheiro-fácil". Mas olhe que não deve ser assim tão fácil."

Quando escrevi este post comecei por dizer que fazia sem preconceitos e um dos que me vinha à cabeça era esse mesmo. Como está colocado em título estou interessado em explorar a escolha de distribuição.

"Aos accionistas porque o seu objectivo em deter títulos é precisamente obter ganhos financeiros que são, em parte, obtidos pelos dividendos."

Não sei se reparou mas a solução era 50%/50% o que em ultima análise não afectaria em quase nada quem vive só dos dividendos (foram distribuidos 52% no meu cenário passaria para 50%)

No entanto, embora o texto seja simples (é um objectivo da minha escrita) sei que tal escolha acarreta consequências muito complexas:

1 - Diminuir 50% dos lucros não tem uma consequência linear. Isto é: se fosse distribuido 2.75 mil milhões de euros isso iria diminuir em mais de 50% os lucros das empresas, derivado das participações cruzadas;

2 - Embora não afecte quem viva dos dividendo iria afectar quem vive da especulação, o que acabaria por dar ainda menos liquidez ao mercado, que no contexto actual seria imprevisível as suas consequências.

3- A taxa de 50% seria muito negativo para se iniciar. Este tipo de actitude para ser aceite comportaria uma mudança de mentalidade que por isso levaria muitos anos;

São apenas alguns pontos que embora não tenha referido sei que são reais.

O que queria demonstrar com este artigo é que também uma empresa pode desempenhar o papel de redistribuição de rendimentos, diminuindo o gap entre salários mais baixos e salários mais altos e que as pessoas que gritam tanto pelo Estado poderão exercer essa pressão também nas empresas que mais diretamente poderão resolver essa questão. Nomeadamente os accionistas. Julgo um pouco hipocrita por parte de muitos empresários criticarem muito este país e se esquecerem que eles próprios poderão fazer a diferença e resolver muitos dos problemas.

Também, com este artigo, gostava de transmitir que os próprios sindicatos poderão lutar por outros pontos que não seja o simples aumento de vencimento base, só precisam de ter um pouco mais de imaginação...

ml disse...

afinal vivemos numa altura que não se questiona o lucro

Sei pouco de mercados e de PSIs, mas a questão interessa-me pelo lado mais 'filosófico'. Não só não se questiona o lucro como se questiona quem o questiona.

Os países nórdicos, e de um modo geral os de origem germânica, desenvolveram-se de um modo diferente dos latinos não apenas por características culturais favoráveis, mas por influência da filosofia religiosa, que foi determinante durante séculos.

Também pode ter acontecido o processo inverso simultâneo mas complementar, que as características culturais os empurrassem para a adequação ao rigor e disciplina da ética luterana, mais do que da católica. Mas a verdade é que o modo como as duas religiões encaram o dinheiro foi fulcral para o modelo de desenvolvimento que os países seguiram.

Os países católicos, valorizando a entrada dos pobrezinhos honrados no reino dos céus e instituindo a confissão que tudo lava, seguiram uma via mais 'deixa andar' e 'trapalhona', o que ainda hoje é notório.

Isto não é tão linear assim, claro, mas o mapa ainda é mais ou menos esse, com as excepções que a história poderá explicar.

Stran disse...

Mais um excelente comentário ML!

"Não só não se questiona o lucro como se questiona quem o questiona."

E como qualquer dogma, era importante quebra-lo para que possamos ver mais alternativas quando tentamos solucionar problemas. Principalmente se analisarmos alguns comportamentos desprovidos desses dogmas (muitos actos que são cometidos ao abrigo do já famoso "é negócio" são deploráveis e injustificáveis).

Infelizmente tenho de concordar com a influência das diferentes Igrejas na modelização das sociedades, influência esse que ainda perdura e que provavelmente irá perdurar enquanto for vivo...

Anônimo disse...

tb lá pûs este post. psicanalises....

ml disse...

e que provavelmente irá perdurar enquanto for vivo...

Nunca se perde, stran, a menos que se passe por um longo período de esquecimento, o que só aconteceria se as sociedades voltassem à estaca zero. Tal não se prevê, evidentemente. E felizmente.

A minha educação foi neutra, na minha casa a religião não tinha qualquer lugar, nem sequer era assunto. No entanto, a moral e os valores eram chapadinhos os do cristianismo.

Stran disse...

"Nunca se perde, stran, a menos que se passe por um longo período de esquecimento, o que só aconteceria se as sociedades voltassem à estaca zero. Tal não se prevê, evidentemente. E felizmente."

Julgo que as sociedades têm a capacidade de se transmutar e de evoluir mudando os seus valores sem que isso seja necessariamente mau. E não é necessário a meu ver voltar à estaca 0 para o fazer (o que seria mau).

NO entanto julgo que é necessário e benefico uma sociedade que se questione constantemente (eliminando dogmas) precisamente no sentido de não perder valores que foram adquiridos ao longo do tempo.

A paz, liberdade e a solidariedade são dois desses valores. Julgo que em sociedades que vivem um longo periodo de liberdade, acompanhada de um periodo de paz pode por esse facto começar a desvalorizar esses dois conceitos.

Julgo que é algo que por exemplo começa a acontecer na Europa. Toda esta contestação ao modelo europeu muitas vezes encerra pessoas que se esqueceram o verdadeiro motivo para a sua construção (paz) e o porquê da sua importância (os horrores da guerra)(acontece o mesmo com a ONU).

Uma geração inteira que não conhece a guerra (foi uma vitória dos nossos pais) é espectacular mas não deveremos que esse legado seja desaproveitado e para isso julgo que é necessário questionar constantemente a nossa própria sociedade. Para que cheguemos à mesma conclusão que os nossos pais chegaram sem a necessidade de que essa conclusão seja forçada.

ml disse...

Sim, as sociedades equacionam e reformulam constantemente os valores sem nunca se verificarem cortes abruptos com o que está para trás. Mesmo que à chegada as práticas e a ética sejam já muito diversas das do ponto de partida.

Isso passou-se e passa-se nas sociedades ocidentais,que são as que conheço melhor, especialmente em relação às rotinas e preceitos puramente doutrinários e de actos de fé, que se vão alterando e esmorecendo. Mas os valores que orientam a vida civil, a cultura, a política, a moral, a ‘superestrutura’, digamos assim, fixaram-se nas práticas sociais e permanecem. Por isso referi o exemplo dos meus pais que, não sendo religiosos, assimilaram como boa a moral cristã de milhares de anos. Por sua vez também esta moral cristã a recebeu dos povos onde o cristianismo se implantou. Um dos pilares da nossa cultura, apesar da distância e da extinção das sociedades que lhe deram origem, a par com o cristianismo, é a cultura clássica. Na filosofia, no uso da razão, no direito.

Por isso eu dizia atrás que só um corte pela base e após um período de esquecimento seria possível mudarmos radicalmente. O que não seria bom e nem sei sequer se possível, já levamos milénios de aprendizagem e adaptação, que são o nosso legado mais precioso.

A consciência generalizada dos direitos individuais, do direito à liberdade e à paz, é recente mas espero que esteja bem assimilada e enraizada. Em tempos de crise, como a actual, muita gente subalterniza esses valores, já que não os pode comer. Impressiona, por ex., o número de russos que ainda hoje têm saudades dos tempos em que não tinham que se preocupar com a comida, com a assistência à saúde, com a educação. Acho que só isso pode explicar a longevidade do Putin, um homem do KGB, que não pode de modo algum ser uma boa memória para os russos.

Mas isto já vai muito longe do tema do post, temos que nos centrar e não divagar.

Stran disse...

" O que não seria bom e nem sei sequer se possível, já levamos milénios de aprendizagem e adaptação, que são o nosso legado mais precioso."

Não posso deixar de concordar contigo. o esquecimento e o abandono do nosso passado traz sempre consequências nefastas nem que seja a repetição de erros grosseiros (por exemplo guerras, ditaduras, etc...)

"A consciência generalizada dos direitos individuais, do direito à liberdade e à paz, é recente mas espero que esteja bem assimilada e enraizada."

Já acreditei que estivesse mais solidificados, julgo que ainda é hoje uma batalha constante para não perder esses direitos, não estando totalmente enraizados na nossa sociedade. Portugal é um bom exemplo, é um país que ainda não valoriza muito a liberdade.

"Mas isto já vai muito longe do tema do post, temos que nos centrar e não divagar."

Pessoalmente eu até gosto de divagar (o que nem sempre é positivo) pois leva-nos a explorar angulos que um tema só não permite.

No entanto esta divagação não deixa de ter ainda raizes no que começamos a debater, nomeadamente no nosso passado e no sentimento contraditório de querer abandonar o passado (legado cristão relativamente ao dinheiro) sem se poder o risco de abandonar o passado (sob pena de perdermos conceitos pouco enraizados na nossa cultra como a liberdade).

Desculpa pelo atraso na minha resposta...