Aforradores Lusitaniae

Sempre me vez alguma confusão a figura central do hommo economicus (HE) na teoria económica. Para além da grande “querela” sobre o egoismo vs altruismo, existia outra coisa que me fazia muita confusão, ou como eu gosto de dizer me provocava comichão nos meus neurónios. Falo do comportamento esperado desta figura central da teoria. O HE era verdadeiramente um heroi da era moderna, pois por causa dele e do seu comportamento todos os problemas ficavam resolvidos. O HE é no entanto apresentado como um ser amarrado às correntes do Estado e para poder agir de forma heróica só tem de se soltar (ou ser solto). Assim o Estado estava para HE como o Kriptonite está para o Super-homem.

Uma vez solto, a sua acção, o seu dinamismo, a sua procura em se superar e fazer as coisas melhor, motivados pelo seu interesse próprio, fariam com que um verdadeiro Céu fosse criado na Terra, todos os problemas fossem resolvidos e vivessemos felizes para sempre. O melhor desta história é que, ao contrário do Super-homem que é único, existem milhões de HE na Terra, pois os HE são os Seres Humanos.

Ora o que me faz muita confusão é a realidade que vivo, ou seja, a realidade portuguesa e dos portugueses. Aqui no nosso cantinho, sempre que via a diminuição do Kriptonite (ou seja Estado), eu não via os HE a aparecer, mas algo que até agora não conseguia identificar. E olhava para os locais onde supostamente estes HE habitam (os mercados) e não funcionavam (por exemplo: o mercado imobiliário, quer na sua vertente de arrendamento, quer na sua versão de venda – embora seja valido para a generalidade dos empresários) como seria de esperar. A justificação habitual que nos contam é que Portugal é um país rico em Kriptonite e por isso é que os HE são fracos. Honestamente, para mim sempre foi um desculpa de mau pagador...

Ora, para mim, a razão mais obvia seria uma razão cultural, mais propriamente um “atraso cultural” sistemático dos portugueses. No entanto julgo agora que estava errado. Motivado por uma pergunta do Tiago Ramalho, pensei mais no assunto. E julgo ter encontrado uma pista para conseguir compreender melhor a nossa realidade: os AFORRADORES LUSITANIAE (AL).

Ou seja, em Portugal não existem HE, ou o seu numero é muito baixo. A figura central de uma teoria economica aplicada à realidade portuguesa deveria ser centrada nesta figura de AL e não na figura anglosaxónica de HE. Obviamente esta afirmação pede a seguinte pergunta: “Mas que raio são os AFORRADORES LUSITANIAE?”

Os AL são pessoas cuja principal motivação é a criacção de uma poupança que lhes dê um rendimento mais ou menos certo, que permita ter um nível de vida que o AL considere aceitável. Assim o objectivo do AL é atingir um determinado patamar de rendimento e não o incremento constante desse rendimento como acontece com os HE. Por outro lado, e ao contrário do HE, o AL não é “geneticamente” concorrencial, como o seu foco de atenção está dependente de atingir determinado rendimento, o que lhe interessa é a garantia desse rendimento e não o incremento do mesmo. Ou seja, mais rapidamente o AL chega a um pacto de não-agressão com outro AL (de forma a minimizar o risco e garantir assim o rendimento pretendido) do que entra em “guerra aberta” como os HE fazem. Finalmente outro aspecto muito importante, é o facto de se comportar como um aforrador, isto é coloca o dinheiro em determinado activo, e fica apenas à espera de receber os juros sem precisar de se esforçar, o que leva a que o AL não seja inovador.

Desta forma, se pensarmos no típico senhorio, dono de café, empresário de uma pequena empresa e demais exemplos da fauna económica verificamos que eles se comportam exactamente como um AL.

E como apareceu este AL? Bem, não encontrei em nenhum livro a resposta a esta pergunta, mas nas sapientes palavras do meu pai (que embora tenha apenas a 4ª classe a sua sapiência vinda de uma vida cheia de experiência em muito ultrapassa a deste seu pequeno filho). Como o meu pai me conta, antigamente não existiam reformas. Assim a grande questão da vida de uma pessoa passava por saber como é que conseguiriam sobreviver quando já não tivessem forças para trabalhar. Esta necessidade guiava as pessoas para, ao longo das suas vidas, fazerem algumas poupanças para: (a) comprar ou construir uma casa para poderem alugar e ter um rendimento fixo, (b) abrir um pequeno negócio (por exemplo um café, restaurante, oficina) que trouxesse um rendimento fixo para ele e a familia. Obviamente outra solução seria fazer muitos filhos e esperar que eles o sustentassem, mas ficar dependente desta solução era demasiada arriscada e criava uma ligação de dependência considerado contra natura pelo tipico português.

Dito isto julgo que seria muito interessante pegar nesta figura (o AL) e simular o que acontece a uma sociedade de AL em que sejam aplicadas soluções da teoria neoclássica economica. Isto é, a que conclusões chegará a teoria económica se, em vez de aplicar o HE, aplicar o AL?

3 comentários:

Carlos Santos disse...

Caro,

Desculpa a demora. Esta é uma resposta complicada que vai exigir post próprio. No essencial, a teoria neoclássica não é compatível com comportamentos não optimizadores. E há uma séria de teorias alternativas em que o que aqui descreves caberia. Herbert Simon é o primeiro nome que me ocorre. Com comportamentos que procuram resultados satisfatórios: um certo nível de rendimento como dizes. Mas há outras escolas, do próprio keynesianismo ao evolucionismo em que isto se enquadraria. O que é muito interessante! Não dá é para adaptar a visão neoclássica a isto: eles até morriam. Matematicamente, toda a teoria neoclássica da economia assume gente que optimiza alguma coisa sujeita a restrições: empresas podem optimizar lucros, um gestor pode optimizar os ganhos em opções de compra, consumidores optimizam utilidade, etc. Estás a destruir o mundo deles:)))
Abraço,
Carlos

Carlos Santos disse...

Não é que valha de muito, mas pela qualidade do que aqui fazes, gostava que aceitasses o que te deixo em:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/06/distincao-lemniscata.html
Carlos

Stran disse...

Oi Carlos!

Bem antes demais um grande obrigado! Não só pelo prémio que decidiste atribuir (e que para mim vale muito pois vem de alguém que cuja a opinião eu valorizo muito) bem como pelas tuas palavras.

Quanto ao teu primeiro comentário muito obrigado. Não tinha a noção que existia assim tantas teorias alternativas, embora conhecesse algumas não tinha essa visão heterogenea...

" No essencial, a teoria neoclássica não é compatível com comportamentos não optimizadores..."

É por isso que o peso desta teoria me faz muita confusão. SE qualquer pessoa consegue ver que então é impossível que essa teoria seja incompleta logo toda a dogmatização à volta dela.

Honestamente eu até julgo a teoria neoclássica uma "boa" teoria, que teve alguns aspectos muito positivos, mas o que fizeram com ela é que foi algo extremamente negativo, e quase que coloco ao lado de outras teorias (como o marxismo por exemplo) nos efeitos que produziu na sociedade humana.

"Não dá é para adaptar a visão neoclássica a isto: eles até morriam."

E estranhamente isso parece-me algo positivo (já agora para os leitores mais distraido, obviamente não falo das pessoas em si).

"Estás a destruir o mundo deles:)))"

LOL I wish...

Obrigado pelo teu comentário que me permitiu ter um pouco mais conhecimento desta temática!

Um abraço
Stran