Discurso Directo: L-O-B-O

Bem tal como prometido no meu post anterior aqui fica o melhor artigo deste blogue. A entrevista com o artista L-O-B-O e a pessoa por detrás do artista. Vale a pena ler todas as palavras. Sem mais demoras e em Discurso Directo:

Perguntas pelo bloguista Stran Ger
Respostas do artista L-O-B-O.



Obrigado por teres aceite o meu pedido. Eu não tenho muita experiência a efectuar entrevistas, por isso espero que gostes das perguntas.

Ora essa, eu é que agradeço. Obrigado pelo teu interesse. Talvez o melhor seja mantermos um tom aberto e fluido... Eu ,de qualquer modo, prefiro assim. O estilo de entrevista à “teste americano” não me agrada. Costumo dizer não a entrevistadores que não têm nenhum interesse em mim nem no meu trabalho, mas só em encher 1/8 de página num jornal. Esse tipo de formato não beneficia ninguém. Mando-os sempre de volta para os press-releases, pois as respostas às trivialidades que me querem perguntar estão com frequência lá... Entrevistas bem preparadas ou em que o artista se pode expandir desempenham um papel importante, mesmo que seja modesto, para a compreensão do que o artista tem a dizer sobre a sua arte e a sua visão do mundo. Creio que o público leitor beneficia mais com esse tipo de formato.
Vamos lá ver, então, aonde é que esta nossa primeira entrevista nos leva. :)



1. Bem esta não é bem uma pergunta, mas é algo que peço sempre que faço uma entrevista. Neste caso gostaria que me descrevesses um pouco quem tu és e o teu percurso.

L-O-B-O é o meu nome artístico e nome da minha actual estrutura de produção. João Nuno Barras e Lobo o meu nome de baptismo.
Lisboeta-alentejano, luso-escandinavo, 39 anos, coreógrafo, encenador, video-artista, ainda performer, radicado na Dinamarca há 15 anos onde continuei os meus estudos artísticos e me estabeleci profissionalmente.
Vivo actualmente com o meu parceiro Henrik Poulsen e 2 crianças no sul da Dinamarca na cidade de Nakskov na ilha de Lolland.

O meu interesse pelas artes performativas surgiu cedo. Comecei a dançar influenciado pela série Fame. Com 13 anos, comecei na ‘dança-jazz’ -tal como todos os adolescentes no início dos anos 80. Com 15 anos, fui admitido no Conservatório Nacional de Dança de Lisboa na turma especial de rapazes. Aqui fui iniciado às artes e dança clássicas, ballet e dança moderna (técnicas Graham e Cunningham). Ao mesmo tempo, envolvi-me com teatro em Almada -no GIC do Pragal-, e pela mão da Maria Santos (mais tarde deputada dos Verdes), a paixão desenvolver-se-ia. Comecei também a dedicar-me algo pobremente a algum activismo político juvenil neste periodo, criando raízes mais sólidas à esquerda do espectro político, um percurso e posicionamentos talvez naturais para quem, como eu, faz parte da 2ª geração urbana de jovens resultante do êxodo rural nos anos 60 da classe trabalhadora alentejana para a capital.

Alguns anos após ter iniciado esses estudos clássicos, exausto do estilo escolástico do Conservatório de Dança de então, de muitas palmadas nas nádegas e gritos de professores psicopatas caquéticos da ‘velha-escola’, de crises de identidade profundas e inícios de um certo comportamento anoréxico por causa do sonho de dançar, verificaria que o meu desenvolvimento teria de continuar noutro lugar. Tentei então continuar a minha formação artística em duas das novas escolas independentes/alternativas que começaram a surgir em Lisboa no início dos anos 90, e complementá-la com formação académica na universidade.

Aprofundei e expandi intensamente os meus conhecimentos técnicos como actor e performer no I.F.I.C.T (Instituto de Formação Investigação e Criação Teatral) –onde, além de algum teatro clássico, tive essencialmente contacto com diversas técnicas de teatro físico, especialmente as inspiradas em Antonin Artaud e Jerzy Grotowski- durante 20 intensos meses, e, logo a seguir, no Fórum Dança –aqui onde, na realidade, se encontrariam as sementes fundamentais que solidificariam o artista em que me tornei.

No Fórum Dança, a transdisciplinaridade total das matérias e técnicas artísticas, a democratização total dos processos criativos de composição tanto como performer e como coreógrafo, a teoria (actualizada!) da arte, dança-teatro, música experimental, bibliografias actualizadas, performance, artes-plásticas, video-arte, video-dança, professores e workshops com talvez a elite artística nacional e internacional mais talentosa e progressista da época em Portugal (Gil Mendo, Vera Mantero, Madalena Victorino, António Emiliano, João Fiadeiro, André Lepecki, Meg Stuart, Ann Papoulis, entre muitos outros) tiveram, não estranhamente, um efeito explosivo em mim, tornando-se, sem dúvida, nos 22-24 meses mais importantes de todo o meu percurso formativo. A esses meses devo quase tudo o que sou e acredito hoje... Comum a estes dois períodos formativos nas duas escolas seria sempre uma continuada àvida absorção de tudo o que era novo e estimulante por mais estranho e arrojado que fosse. As programações extraordinárias das primeiras edições dos Encontros Acarte na Gulbenkian, tiveram também um papel absolutamente fundamental na minha formação como artista e como indivíduo.

Simultaneamente com todos estes afazeres, coisas que me fascinavam e sonhos maiores que a minha capacidade de ver, ouvir e respirar e outras distracções –como a minha identidade sexual em galopante e desorientado progresso-, fui tentando procurar e encontrar sentidos para uma sensibilidade artística ainda em bruto que não cabia em si. Ao mesmo tempo que ia coordenando precariamente os meus estudos de Antropologia na Universidade Nova de Lisboa com uma actividade como performer e administrador/produtor do grupo de performance OLHO (que nasceria parcialmente do GIC de Almada e de novos elementos convidados), do qual seria também co-fundador em, salvo erro, 1992. A minha actividade diária era de tal forma héctica, que o sucesso estrondoso e inesperado da performance “EL (Levando-o Aos Ombros Em Passo De Marcha Sincopada Ao Quarto Tempo)”, que trouxe ao encenador João Garcia Miguel e ao colectivo OLHO reputação como os La Fura Dels Baus portugueses, passou-me ao lado, apesar de eu estar activamente e profundamente envolvido em tudo... Já aqui, começara claramente a notar um inevitável overload, que me criava uma sensação ininterrupta de que só estaria bem algures onde não podia estar... Onde, precisamente, também não sabia... Só de uma coisa tinha a certeza: só o céu poderia ser o limite, o Pathos total e absoluto, nada menos que isso, e, para tal, nada melhor que sair de Portugal para absorver directamente das fontes de experimentação em performance e dança e dos artistas europeus com quem criara profundas afinidades estéticas e de gosto, que tanto me fascinavam e faziam sonhar.

Esse overload não me deixou ver, porém, que Portugal começara já a ser nessa altura um dos mais excitantes lugares para estar a nível europeu, com artistas tão fantásticos como Mónica Calle, Lucia Sigalho, João Garcia Miguel, Francisco Camacho, Vera Mantero, Clara Andermatt, Madalena Victorino, Margarida Bettencourt, Olga Roriz, João Fiadeiro –a maior parte dos quais com quem privava diariamente. O que nos faltava a nós portugueses, não faltava aos ingleses, belgas e holandeses: recursos financeiros. Mas o nível dos nossos artistas independentes era o mesmo, senão mesmo de longe superior ao dos que vinham de fora e eram apresentados ao público português em eventos de prestígio.


2. Mas como surgiu a Dinamarca na tua vida?

Apesar do meu entusiasmo inegável por muitos dos criadores da Nova Dança e Performance portugueses, a minha cegueira era total. Sucumbi à velha mentalidade portuguesa de que ‘lá fora é que era bom’ –uma mentalidade que era vulgar na minha família. A minha ideia de “futuro” estava profundamente ligada aos países “mais desenvolvidos”.
Enquanto permaneci em Lisboa, sentia profundamente uma violenta urgência de sair –o lema punk “No Future” era algo de obcessivo na minha mente- e não pude deixar de pensar que só seria ‘alguém’ um dia se tivesse um percurso formativo e profissional fora de Portugal.

Em Fevereiro de 1991, o Acarte apresentaria um encontro de teatro, dança e performance nórdicos onde se apresentou uma imagem exageradamente positiva da fruição e formação de artes performativas nestes países, particularmente na Dinamarca, que eu viria a interpretar como semelhante, senão mesmo superior, às da Holanda e Bélgica e de outros países europeus... Foi aqui, de facto, que a Dinamarca se apresentaria como um destino possível para a continuação dos meus estudos e, eventualmente, da minha vida profissional.

Após várias tentativas, conseguiria, em 1994, uma bolsa de estudo de 3 anos da Fundação Calouste Gulbenkian para tirar um bacharelato em teatro-físico na School Of Stage Arts em Vordingborg na Dinamarca.
Apesar de todos os problemas pedagógicos, económicos e, por sua vez, curriculares que esta formação na altura teve, ela veio inegavelmente permitir-me criar um sentido de ordem na excitante amálgama de impressões, saber teórico e técnico e experiências performativas obtidas nos anos anteriores, e em toda a inquietude que me ia na alma...
Iniciei os meus estudos na Dinamarca em Setembro de 1994. Curiosamente, penso até que nesse mesmo mês, o OLHO experienciaria o seu definitivo breakthrough com a reposição de outra fantástica criação, a performance “Humanauta” de João Garcia Miguel -com as impressionantes e inesquecíveis estruturas cenográficas móveis de Eric da Costa, evento que definitivamente posicionaria o OLHO como a vanguarda das artes performativas em Portugal até à sua dissolução voluntária no início deste século.

E assim foi... De repente abri os olhos e aterrei aqui, no norte da Europa, fugitivo: de mim próprio, de Portugal, da mentalidade pós-Estado Novo miserabilista e pós-revolucionária, da saudade, do fado, das cunhas, da falta de dinheiro, da falta de perspectivas, da corrupção política, da incompetência, da falta de disciplina, de nightclubbing e sexo sem fim com os dois sexos, do país de todos os atrasos, das minhas raízes de classe-operária alentejana, dos portugueses, dos charros e da erva dos outros, do meu pai, e de mim próprio... às 13 horas e 21 minutos de 09 de Setembro de 1994.

Imediatamente, logo que cheguei, fez tudo mais sentido. Um novo sossego começaria a tomar conta de mim. A minha bagagem estava, claramente, cheia de sonhos e de energia criativa explosiva a que tinha de dar vazão, mas era também uma bagagem a necessitar de exílio, emocional e artístico... E também, ainda, de orientação, necessidade de reflexão, consolidação da minha identidade e do meu querer.
Tudo isto só se tornaria claro para mim, anos depois...

Após o Conservatório, entre 1989 e 1994, a minha actividade tinha sido extraordinariamente riquíssima e intensa na sua disparidade de actividades, escolas, pessoas e experiências, e na falta de capacidade de arrumar tudo e dar-lhe algum sentido. Lembro-me de uma exaltante sensação de sufoco e de pânico percorrendo todo esse período assustador e excitante ao mesmo tempo, querendo ser amado, aprender incessantemente, desejando incontrolavelmente também ser apreciado pelo meu talento em bruto... Absorvi tudo, especialmente ao ser exposto a novas formas, novos seres, identidades e pensamentos artísticos, como uma esponja, sem filtros, sem defesas... Sexo e arte também: -embriagadamente, avidamente, secretamente e demasiadamente. Sempre sentindo-me como um eterno outsider, corria, porém, incansavelmente no vazio, e nunca ninguém me soube ou pôde dizer claramente como parar e reflectir...
Houve uma orientadora do Fórum Dança (que sempre adorei e respeitei), que se envolveu um pouco –mal sabendo o que me ia na alma e no corpo- e que quase o conseguiu fazer... Mas o rodopio interno das minhas emoções era tal, que a traí na sua confiança em mim e a magoei sem querer... Ela, claro está, desistiu marcante e rapidamente de mim... Apesar da sua decisão ter sido certa e a chicotada psicológica resultante desse facto ter sido fatalmente eficaz –pois nunca a esquecerei, ela não devia ter desistido... Hoje sei o indiscutível valor que um valente puxão de orelhas poderia ter tido num certo rapaz de 23 anos...

A minha frequência académica na Universidade tinha, entretanto, criado em mim a necessidade de me especializar em Antropologia do Teatro. Mas no deserto de perspectivas que a aridez da Faculdade de Ciências Socias e Humanas da Universidade Nova de Lisboa da altura oferecia, rapidamente me apercebi que nunca conseguiria obter nenhum tipo de orientação, nem sequer mentores de longe interessados...

Daí que o meu interesse pela actividade de Eugenio Barba, do Odin Teatret e da University for Theatre Anthropology em Holstebro me parecesse, assim, compatível tanto com as minhas ambições artísticas e académicas da altura como com o meu sonho juvenil de viver na Escandinávia. Foi a primeira vez que a Dinamarca se tornou num destino concreto... Mas, em conversa com a actriz Roberta Carreri do Odin Teatret em Lisboa em 1991, fiquei a saber que essa ‘universidade’ se dedicava somente à realização de workshops 2 vezes por ano em diferentes partes do mundo e que não tinha um programa de formação académica na área. Funcionava só como um centro de encontro, pesquisa e debate... Cedo verificaria que também não dava prioridade a toda a vanguarda das tendências da história contemporânea das artes performativas e da dança do final do séc. XX na América e na Europa, às quais tinha sido introduzido no IFICT e, essencialmente, no Fórum Dança. De universidade só tinha o nome... Ainda em 1991, meses depois, tomaria contacto com a companhia dinamarquesa Teatret Cantabile 2 e a peça “Krigens Kvinder/Dances of Patience and Desolation” –que, na altura, me deslumbrou. Um workshop de 3 dias no Festival de Teatro de Almada seria inesperadamente decisivo para a minha admissão na School of Stage Arts, gerida pela companhia.
E assim vim...

Em 1994, pus o estilo de vida urbano totalmente de lado dando lugar a sensivelmente três anos de intensa disciplina artística diária no romântico bucolismo de Vordingborg (sul da Zelândia), até os meus estudos se completarem. Aulas, ensaios, arte, música, livros e ar puro... Mais nada do que disciplina total e trabalho artístico árduo –muito deste trabalho solitário-, na ordem das 10-16 horas diárias de actividade. Ao mesmo tempo, na School Of Stage Arts, abrir-me-ia mais a outras correntes de teatro-físico, Jacques Lecoq, Dário Fo, Peter Brook, Eugénio Barba/Nicola Savarese, Augusto Boal, Samuel Becket, Bertold Brecht, etc. Usufruiria de uma tenaz introdução de mais de 3 meses ao Butoh japonês com Minako Seki e também descobriria com Paolo Nanni a sobriedade e riqueza do timing das encenações cinematográficas da obra de Jacques Tati, particularmente da riqueza das acções coreografadas de ‘Playtime’...

Timing, ritmo, disciplina árdua, resistência, persistência, precisão, sobriedade e inteligência foram claramente absorvidos por mim como valores essenciais neste escola. Memórias gratas e preciosas que serão para sempre importantes aspectos da minha identidade como performer e criador. Apesar dos problemas que referi há pouco, os meus anos em Vordingborg, foram uma experiência extrememamente poderosa e enriquecedora.
Apaixonei-me também por uma colega sueca, uma relação amorosa de 3 anos que se revelaria determinantemente como o último acto da minha bissexualidade em transição.

No entanto, além dos deveres curriculares, consolidaria e expanderia, na solidão do meu quarto, (e sempre que possível na sala de vídeo da escola noites a fio até de madrugada), as sementes do Fórum Dança: Pina Baush, Bob Wilson, Jan Fabre, Laurie Anderson, John Cage, Marina Abramovic, assim como os expoentes da nova-dança teatral europeia desse periodo, Lloyd Newson e os DV8, Wim Wandekeybus, a Needcompany, Anne-Therèse de Keersmaker, Meg Stuart, as vanguardas americanas em arte e dança de Rauschenberg e Warhol a Steve Paxton e Twyla Tharp, ainda Reza Abdoh, Edith Clever & Hans Jürgen Syberberg, Bill Viola, Heiner Goebbels, Robert Lepage, Wooster Group –entre muitos outros- como valores absolutamente indiscutíveis.
No cinema, seriam a volatilidade das poéticas e a visualidade das obras de, entre outros, Peter Greenaway, Derek Jarman, David Lynch, David Cronenberg, Orson Welles, Andrei Tarkovski, Sergei Eisenstein, Fritz Lang, F.W Murnau, Werner Herzog, Stanley Kubrick, Lars Von Trier, que me continuariam a tirar o sono com frequência...

Numa conferência em Copenhaga –não me lembro qual, há 10 anos atrás, ouvi Trevor Davies (o então Secretário-Geral de K96 –Copenhaga Capital da Cultura) dizer que ninguém tem razões claras para vir para a Dinamarca, que é sempre uma necessidade difusa de exílio que traz artistas estrangeiros para aqui, pois a Dinamarca não era nenhuma Meca das artes cénicas, apesar de os meios financeiros abundarem. Quem quisesse, que se iludisse...!
Pela primeira vez, nesta conferência, percebi finalmente parte da minha razão de ser no norte da Europa... E de como me tinha iludido meses a fio em Lisboa -e também enquanto estudante em Vordingborg, que a Dinamarca pertencia a um centro nevrálgico de actividade e correntes artísticas tal como a Holanda e a Bélgica nos anos 80 e 90 o foram –e ainda o são. Não concorri a nenhuma escola nestes países uma vez que todos os exílios são fugas, e eu precisar de fugir de Portugal, da nossa mentalidade, dos portugueses. E havia vários portugueses nestas escolas e também comunidades de emigrantes portugueses nestes países... Na Dinamarca, não havia... Acreditei também que o meu fascínio de adolescente por Valhalla, Odin e Thor seriam suficientes, que o facto de romanticamente sempre me ter sentido mais nórdico do que latino/sul-europeu seriam suficientes -curiosamente, desde a minha chegada à Dinamarca, que nunca me senti nem emigrante, nem estrangeiro. Apesar da sensação pessoal/privada de exílio, muito rapidamente me identifiquei com a mentalidade dinamarquesa/nórdica e rapidamente também aprendi esta língua difícil sem esforço. Foi tudo muito natural. A minha integração neste país não se confrontou com problemas de maior..

Esta foi a outra parte da razão porque a Dinamarca aconteceu. Um eterno fascínio romântico pelas culturas do norte –pelo frio, pelo escuro, pela neve- tornado convicção de uma certa pertença espiritual, um dia reforçada por uma amiga sueca (que hoje é padre), que, reagindo ao meu esgar engasgado pela beleza deslumbrante da província de Norra-Dallarna no centro-norte da Suécia em pleno Inverno de 1997, e enquanto andávamos por um lago gelado numa tarde de Dezembro com 16 graus negativos, me diz, sorrindo jocosamente, que é possível que eu seja a reencarnação de um viking que sobreviveu aos contra-ataques dos mouros que expulsariam os vikings de Lisboa. Um viking abandonado aí em Lisboa na Alta Idade Média, que agora está finalmente a tentar encontrar o seu caminho de volta para casa aqui no norte através de mim.

Ainda hoje, não posso deixar de sorrir ao lembrar-me deste comentário... Mas, apesar do meu ateísmo convicto e falta de prácticas espirituais, encontro nas notas ou divagações que tenho hoje em quase todos os projectos que realizei desde 1998, e em quase todos os projectos futuros desta nova fase da minha actividade criativa, pontos recorrentes dum desejo de encontro com a cultura, história e identidade nórdicas.
Após 15 anos de permanência aqui, e sem perder de vista outro tipo de preocupações, que o desejo da ‘navegação’ para criar esse encontro tem sido, e é cada vez mais, um facto indiscutível no meu trabalho artístico.
Daí também, precisamente, o logo de L-O-B-O ser, hoje em dia, a ancestral rosa-dos-ventos viking, um Vegvisir.



3. Estive a ler um pouco sobre os teus trabalhos. Qual é o que considerarias o traço comum a eles?

Solidão, talvez... Mas não a solidão depressiva, antes a solidão reflexiva, reactiva. O momento de reunir forças e voltar ao de cima.
Os meus trabalhos são bastante dinâmicos –há quem diga mesmo agressivos, por isso... Mesmo os mais lentos como “ØM [Sore]”, contêm sempre um elemento de risco em termos emocionais, estéticos e físicos para mim e/ou para os meus performers... E para o público também. Se as audiências ficarem emocionalmente indiferentes e não se envolverem, considero com frequência o meu projecto incompleto.

Além disso, eu poderia talvez caracterizar a maioria das minhas peças como coreógrafo, encenador e vídeo-artista como sendo bem apoiadas em investigações inspiradas nos processos de trabalho de campo académicos sócio/humanísticos, através do contacto com determinados grupos na sociedade, de entrevistas, etc...
Nem todos os meus trabalhos são realizados exclusivamente assim. “unCUT” foi talvez a peça em que essa foi a premissa base absoluta. A esteticização desta primeira fase de trabalho conduz-me sempre a um desejo de interdisciplinaridade (vídeo-arte, texto, dança, artes plásticas, etc), onde crio figuras fortes e solitárias e conceitos cénicos e universos visuais fortemente expressivos para elas e para o caleidoscópio de situações simbólicas e emoções que atravessam –que posso retratar de forma mais ou menos abstracta consoante a peça.

ØM [Sore]”, por exemplo, vive de uma intensidade de carácter implosivo, enquanto que “Lobotomi”(2007) –o meu mais recente trabalho para cena- foi caracterizado pelo público e pela crítica como deixando os espectadores em “Inabitual estupefacção!” e, ainda, como sendo “Arrepiante na forma como provoca a nossa massa cinzenta!”.
Devo ainda acrescentar que algo a que retorno sempre em quase todos os meus trabalhos são as temáticas ligadas a género e identidade sexual –particularmente, masculinidade(s)- assim como temáticas mais voltadas para as relações entre indivíduos, instituições, tecnologia, arte e sociedade.


4. Numa parte do teu site está dito que o teu trabalho ou é ignorado ou é um desafio aos sentidos. Na tua opinião, qual será o motivo para tanta diferença de opinião?

Por vezes, os críticos convidados vêm às minhas estreias e não escrevem. Lembro-me claramente dessa situação recentemente por ocasião da minha performance “Lobotomi”(2007). Fico profundamente indignado. Não me importo que escrevam mal, mas que não escrevam –nem sequer online, considero uma arrogante falta de profissionalismo, por vezes uma provocação desnecessária e uma ofensa ao meu intelecto, um abuso de poder, especialmente quando um artista independente como eu (e outros como eu) depende de todas as formas de visibilidade possíveis para a nossa obra continuar e permanecer. Já basta que as artes performativas tenham um carácter efémero.

A crítica na imprensa é um mal necessário. Os públicos novos não se tornam assíduos se não lerem que um determinado artista e a sua obra está em exibição, ou se não ouvem que se escreveu bem ou mal no jornal X ou Y, ou que se diz que se disse... Mas há sempre um ou outro crítico que tem a decência de tentar. Alguns têm escrito bem.
As diferenças de opinião relativamente às minhas obras devem, talvez, residir em dois factores. O primeiro é cultural –o meu trabalho (mesmo as peças mais abstractas) tem, talvez de uma forma geral, um carácter formal claramente mais directo, um temperamento mais sul-europeu, confrontativo e menos esotérico e/ou humorístico do que o da maior parte dos meus colegas nórdicos (talvez daí o meu maior sucesso até à data ter sido a minha peça de 2001 “Saudade [nada#2]” sobre Carlos Paredes, a mais clássica que fiz até à data e que recebeu um prémio coreográfico dinamarquês. O outro factor é o facto de eu não gostar de fazer cedências e de tentar o mais possível ser consequente e defender a integridade de tudo o que faço, mesmo se o material é difícil. As componentes de visualidade e sonoridade das minhas peças são sempre extremamente elaboradas.

Paradoxalmente, num país como este, o dinheiro é sempre pouco, e as oportunidades para criar condicões de trabalho e dignidade defensáveis para mim e para os meus colaboradores, para a produção independente em geral, têm-se reduzido nestes ultimos execráveis 7-8 anos de “Kulturkamp/Guerra-Cultural’’ do regime liberal dos partidos de direita conservadora Venstre/Konservativ sustentados, na sua maioria parlamentar relativa, pelo partido xenófobo Dansk Folkeparti, anos em que se assistiram aos cortes mais brutais nos orçamentos da cultura de que há memória. A dança e toda a criação independente foram imediatamente as primeiras vítimas, o teatro a seguir, o ensino artístico alternativo desapareceu a nível nacional, exceptuando talvez a minha escola, a School of Stage Arts.

Um exemplo concreto do actual estado das coisas é o facto de há cerca de 3 meses atrás se ter descoberto que, por causa da actual crise financeira, o governo, juntamente com o seu partido de suporte, ter decidido, unilateralmente e sem consultar ninguém, financiar uma redução nos impostos através da transferência de verbas atribuídas para a cultura e para os teatros e companhias deste pais. Estes cortes foram uma surpresa até para a actual Ministra da Cultura Carina Christensen –que, aparentemente, não sabia de nenhum acordo. Ou seja, a decisão foi tomada à revelia e ninguém pôde tomar posição sobre esta questão. Neste momento, a situação é de tal forma crítica que não me parece haver nem objectivos, nem dedicação, nem liberdade na política cultural deste país, sintomático de um desinteresse geral tanto dos responsáveis do estado como da oposição. Como se ambas as partes estivessem em acordo total relativamente à naturalidade de actos desta irresponsabilidade... O escândalo faz correr tinta na imprensa, claro está... É inadmissível.

Apesar disso, medos continuei e continuo, a ter poucos ou nenhuns: - isso pode ser considerado como um desafio estimulante por uns ou uma provocação desnecessária e punível por outros. Coreográfo, enceno e filmo o que a composição da obra exige. O resto não me importa... Cada nova obra tem de viver com dignidade e integridade totais e não de sobreviver coxeando à espera das condescendências e alvíssaras deste ou daquele crítico ou político, desta ou daquela conjuntura política.
Os colegas e o público que têm alguma afinidade com a minha obra respeitam-me por isso, penso...
A arte permanece, é essencial à vida. Os críticos e os políticos são, felizmente, efémeros, substituíveis.
Melhores tempos virão...


5. Num dos teus últimos projectos “unCUT” (2008) abordas o tema do problema de géneros. Da tua pesquisa, que, se não estou em erro, passou por Copenhaga, Estocolmo, Atenas, Gotemburgo, Bergen e Oslo, qual é a diferença de reacção a este problema?

unCUT”(2008) é um produto derivado do projecto “THE CUT” -que me levou 5 anos a fazer- apresentado como uma performance em Copenhaga e como uma conferência/performance na Universidade George Mason na Virginia do Norte perto de Washington em 2003. Hoje, em 2010, é uma instalação de vídeo-arte sobre identidade, género e masculinidades. A única peça distintivamente Queer que fiz até hoje.

Os países escandinavos são muito uniformes no que respeita a questões de género e identidade. O debate sobre estas questões é um dado adquirido, não é problemático, apela-se sempre aos valores da tolerância, aceitação e abertura de espírito, valores porque estas sociedades são conhecidas em todo o mundo. Os homossexuais aqui são dos mais privilegiados em todo o mundo. A liberdade de expressão e de união é total (o casamento, como o dos heterossexuais, não existe ainda, só as uniões de facto -tenho acompanhado pela internet os excelentes acesos debates nos media sobre os direitos dos homossexuais portugueses).

O fenómeno do crescimento da ocorrência de hate-crimes aqui é perturbante, mas esses crimes são essencialmente cometidos por jovens a formar a sua identidade com outro background étnico, ou então adultos ignorantes ou sem escrúpulos de outras origens étnicas –normalmente árabes, africanos, eventualmente leste-europeus. Normalmente os perpetradores não são de origem étnico-nórdica.

No entanto, e voltando à questão dos géneros, verifiquei que, na verdade, as coisas não se passavam inteiramente da mesma forma como com os homossexuais quando se tratava dos transsexuais (prefiro, de facto, o termo transgéneros). Nós, no sul da Europa, temo-nos habituado um pouco a ter a tendência de considerar a Escandinávia uma perfeita quimera de virtudes imaculadas. Mas há, de facto, ainda muita coisa para melhorar. Há muito por fazer relativamente ao estigma vivido pelas transindentidades.

O meu trabalho de campo final para a instalação “unCUT” foi realizado há cerca de 6-7 anos atrás. Entretanto, muitas coisas se alteraram para melhor. Estou certo de que nas novas entrevistas que farei a partir de Janeiro para a continuação do processo de “unCUT” até 2011, hoje em dia muitos transgéneros se expressarão de forma diferente do que fizeram então. Pelo menos na Dinamarca parecem, finalmente, estar mais organizados e serem mais interventivos e visíveis do que nunca.

Algumas das situações legais relativamente aos seus direitos já não são tão caóticas como há 7 anos atrás, nomeadamente: a questão de melhor acesso à intervenção cirúrgica definitiva aqui na Dinamarca com ajuda parcial do Estado –para que os transgéneros não tenham de ir para a Tailândia e outros destinos obscuros e baratos arriscar a sua vida ou saúde e ficarem com um handicap físico crónico irreparável- ou ir a clínicas insuportavelmente caras no ocidente e sujeitarem-se a dificuldades económicas ad eternum; ou então ainda a questão aparentemente simples da lei da mudança de nome.
Este último aspecto tem sido uma luta de muitos anos para os transgéneros aqui, mas a lei foi finalmente alterada este ano. Já se pode ter um bilhete de identidade e passaporte com o nome do género escolhido após a cirurgia, e em Julho deste ano tornou-se legal a possibilidade de nos passaportes ser permitido colocar um X em vez de M ou F no caso da cirurgia ainda não ter sido efectuada e a Clínica Nacional de Sexologia já considerar esse indivíduo como transsexual/transgénero.
Há 6 anos atrás, verificaria que era na Noruega que graças ao trabalho político de muitos anos de dedicação de Tone Maria Hansen e Elsa Almås Esben Esther Pirelli Benestad que os transgéneros noruegueses no conjunto dos países nórdicos eram os que menos sofriam... A situação está, felizmente, a alterar-se lentamente aqui na Dinamarca.
Ultimamente não tenho acompanhado os desenvolvimentos mais recentes na Suécia, Finlândia e Islândia.

Em Atenas, onde comecei a escrever o projecto em 1998, fiz só entrevistas sobre masculinidade(s).
Por sua vez, os estudos da(s) masculinidade(s) nórdicas tem tido um desenvolvimento francamente interessante nos anos mais recentes. Há associações de académicos bastante dinâmicas e bem organizadas e mesmo muito debate. A NeMM, a Associação de Estudos sobre Homens e Masculinidades dinamarquesa, convidou a minha instalação “unCUT” a ser exibida na Universidade de Roskilde em Janeiro de 2009, no âmbito da 1a Conferência Nórdica de Masculinidades.


6. Qual é que achas que será o caminho para o género deixar de ser um problema?

Quando este apartheid do(s) género(s) e das sexualidades em que ainda vivemos e de que nunca falamos claramente começar a desaparecer, quando pusermos de parte a generalização e os estéreotipos relativamente a género, quando aceitarmos que é a biologia que dita as regras e não sentidos de moral categóricos. Quando ideologias retrógradas deixarem de ter influência no que deve ser a expressão sexual e de género de cada indivíduo. Quando aceitarmos que, na realidade, nós não deveríamos ser definidos pelos nossos genitais mas pela identidade de género que temos.
Seríamos definitivamente todos mais felizes se nos deixássemos de impor ‘coletes-de-força de género’ a seja quem fôr e nos decidissemos pela clara evidência de que estamos todos posicionados diferentemente (e também criativamente) num continuum espectral de género e de identidades sexuais.

Quando aceitarmos que para muitas mulheres e homens na nossa sociedade, ser homem ou mulher ou simplesmente um ser humano, ter um pénis ou uma vagina não é o essencial, e que o essencial e mais importante não é o que deve ser um direito humano rigorosamente absoluto à privacidade de cada um–o que está debaixo de umas saias ou dentro de umas calças-, mas a identidade que as pessoas sentem fervorosamente ser/ter, apesar das partidas que a biologia nos possa ter pregado. Que o essencial é uma pessoa ser socialmente e intelectualmente competente numa sociedade, na vivência e transmissão de valores essenciais de camaradagem, compreensão, liberdade, justiça, dignidade, tolerância, amor para com o seu semelhante, outros seres humanos.

Quando aceitarmos que género e sexualidade podem ser tão variáveis como as nossas impressões digitais e que o que na verdade todos somos é mutantes e transgéneros, então aí sim... Talvez aí comecemos a estar no caminho certo.
Se se introduzisse a palavra ‘gender’ no segundo artigo da Lei dos Direitos Humanos, seria excelente.

7. Na minha opinião poder-se-á definir o teu trabalho como uma tentativa (julgo que conseguida) de ultrapassar os limites. A minha dúvida é qual é o teu limite?

... e tentativa de criação ou retrato de situações limite e de indivíduos em situações limite, também...
Não sei qual é o meu limite. Quando crio, não sei quais são os meus limites. É em si também um trabalho de procura. As minhas peças têm também de me provocar, tenho de sentir que saem de mim. É assustador chegar a um sítio desconhecido sem norte em termos emocionais quando se compõe uma peça para filme ou cena, mas exaltante a procura do sentido intrínseco das coisas, procurar a pureza da verdade das emoções.
Na minha procura, muitos dos partos são sempre com alguma dor, pois costumo não saber de antemão que ia precisar de querer dizer ‘aquele-algo-verdadeiro’ que se encontrou durante o processo de criação/composição de uma nova peça. Não temo essa exposição, porém...
O coreógrafo Merce Cunningham disse uma vez que iria dançar até morrer, que mesmo se estivesse completamente paralisado físicamente e o movimento do seu dedo mindinho fosse a única coisa, a única dança, que ele pudesse apresentar em palco, que assim o faria. Eu sinto o mesmo...

No entanto, nem todas a minhas peças vivem deste estoicismo. Mas espero nunca saber os limites. Temo profundamente os estados de letargia, procuro não saber... E se der com eles, com os limites, espero sempre poder encontrar a ‘gear’ e a energia certas para superar a fasquia desse limite e, assim, entrar de novo num estado de graça criativa em que sinta que tudo é possível... Assim como quando se diz a verdade em circunstâncias sociais que a suprimem. A maior parte das vezes é uma experiência libertadora, redentora, assustadora, por vezes! Creio que só assim se me não parará a ambição, livre, sem obstáculos, sem inibições, até morrer.
A verdade poética inigualável e inabalável da composição coreográfica/fílmica a que se chega é sempre o mais importante. Só assim sinto os actos de compor coreograficamente para cena e/ou a montagem dos meus filmes como autênticos e meus.

8. Actualmente estás a editar um novo trabalho, o "Sore". É sobre o quê?

O “ØM [Sore]” está terminado. Foi estreado em Copenhaga em Março de ’09. Agora está a ser exibido em festivais internacionais de vídeo-dança, nomeadamente no Brasil e Bélgica e, espero que em breve também, na Austrália, Estados Unidos e Nova Zelândia, África do Sul, Escócia, Finlândia e outros pontos da Europa. Se calhar também em breve em Portugal. Quem sabe...?
Este video-dança é uma filmagem da uma cena da minha peça coreográfica [ { ( " ... deaf - mute ... " ) } ] de 2000, na qual coreografei disruptivamente a bailarina e actriz-física Medde Vognsen nos limites da sua resistência física, quer de actividade quer de inactividade. O filme é a adaptacão da cena mais lenta da peça, a cena final.

Em “ØM [Sore]” procurei, através de ensaios intensos, criar coreograficamente uma materialização daquela zona interior em nós com a qual a maior parte do tempo nós não desejamos ter nenhum contacto. Uma zona indistinguível de verdade, a que chamei ‘surda-muda’, porque está debaixo de tantas camadas do nosso inconsciente, que se torna difícil comunicar com ela mesmo quando se quer entrar em diálogo com ‘ela’, ou ouvir o que ‘ela’ nos diz quando estamos mais vulneráveis.
O título desta peça fílmica, “ØM [Sore]”, deve-se entender como em ‘dorido’ ou ‘ferido’, como a dor ou ferida emocional que nos abre “perigosamente” um estado de espírito, um canal, uma via de contacto com essa zona.

Estas peças aconteceram porque entre 98-00 e entre 03-06 atravessei dois áridos períodos depressivos de exemplar intensidade. O primeiro que acabaria por potenciar uma fase de incessante criatividade em que produzi muitas peças novas para cena (dança e performance) e fui performer em peças de muitos colegas num espaço relativamente curto de tempo. O segundo período que foi mais profundo e dramático tendo-me paralisado quase totalmente durante 5 anos. De repente perderia, de forma aparentemente irreparável, o amor à minha profissão e deixaria de ver qual era o objectivo em fazer o que faço e a razão de ser de tudo... Foi absolutamente terrível, assustador, devastador... Além do mais, quando se é artista-cénico independente, numa sociedade profundamente estruturada sob o ponto de vista social e profissional na necessidade de permanente e incansável networking como a sociedade escandinava, parar, pode, de repente, significar o esquecimento total por parte dessas redes profissionais e sociais... Sim, mesmo socialmente, suspeito ser assim.

Ainda hoje, após 15 anos neste país, sinto que na Dinamarca tem de se merecer a amizade ou a relação de trabalho que se tem com alguém. Não é tão fluido e flexível como connosco latinos, talvez por esta ser uma cultura do frio, de interiores, talvez daí a necessidade de uma maior ‘selecção natural’... No entanto, existe um enorme sentido de pertença e de profunda lealdade entre as pessoas se a relação tiver funcionado. Gosto mesmo muito dos dinamarqueses.

Re-iniciar a minha actividade artística com a instalação “unCUT” no final de 2008 e, no início de 2009, finalmente concretizar “ØM [Sore]” na sua versão final, pareceu-me o mais certo para fechar claramente uma fase de 10 anos
como criador e uma determinada forma de criar. Em 2010/11 procurarei fazer sair um dvd com o resumo possível de toda a minha obra.
A arte-cénica, o palco, interessa-me muito ainda. E estou certo que muitos dos projectos futuros que tenho na gaveta com muitos colaboradores não tardarão a acontecer, decerto. Mas, por enquanto, nesta nova fase, estou mais interessado em fazer muitos filmes curtos e instalações low-budget. Nada de ambiciosas produções que me tirem o sono dias a fio e que me retirem do meu perfeito juízo. Agora vivo no campo, a 171km a sul de Copenhaga, com o meu parceiro Henrik, que amo profundamente e temos duas miúdas a entrar na adolescência à velocidade incontrolável da luz. De forma natural, os timings e as prioridades modificaram-se um pouco também. De forma natural aproximo-me da minha andropausa no conforto do meu pequeno estúdio caseiro, cheio de ideias, de projectos e de energia para os concretizar. Quero viver até aos 111 anos e olhar para o corpo do meu trabalho com um sentimento de ‘missão cumprida’...

Nos meus próximos trabalhos, desejo aprofundar ainda mais sob o ponto de vista humano o meu relacionamento com os meus colaboradores (habituais e novos), baseando-o em princípios de respeito, trabalho árduo, espaço de manobra criativa individual, disciplina, e amizade e lealdade à composição em que escolhemos colaborar juntos artisticamente. Uma filosofia mais ‘horizontal’ de trabalhar –em contraste com a ‘verticalidade’ cruel dos deadlines sucessivos do ‘showbusiness’, entendes...(?), o que necessariamente desacelerará a hiper-actividade dos processos criativos a que estava habituado em ambientes urbanos. Hiper-velocidade criativa para mim foi sempre contra-producente… É cada vez mais importante para mim a razão de ser das minhas obras.

Isso vai já começar a acontecer com as novas peças fílmicas que espero ter prontas entre este Outono e a próxima Primavera. “ÆTER [Ether]” e uma 2ª série de retratos-de-vidro-múrmuro "FACIAL(c)LIF(f)(t)", que são peças de charneira, entre fases criativas, mas que terão uma dinâmica e um carácter diferente das peças que actualmente tenho em circulação e das que comecarei a produzir em 2010.
O peça seguinte, o filme-de-dança, “NAKSKOVIT”, é uma peça de fundo um tudo nada mais ambiciosa (pela primeira vez captarei extensivamente dança em exteriores), uma curta-metragem de dança que será filmada na íntegra aqui na ilha de Lolland. Vai ser um processo fantástico de cerca de 16 meses, longo e calmo, on & off, com bailarinos e actores amigos dinamarqueses por quem tenho um profundo respeito e admiração tanto sob o ponto de vista humano como profissional!

9. Como é o teu trabalho visto na Dinamarca? E em Portugal?

O meu trabalho não é conhecido em Portugal, a não ser por um grupo restrito de amigos íntimos e mesmo assim só parcialmente.
Na Dinamarca, o meio da dança e teatro independente e performance é pequeno e relativamente isolado. Ninguém é conhecido a nível nacional, a não ser que se seja convidado para fazer parte do júri do X-Factor ou doutros programas de talentos. O mesmo deve acontecer um pouco por todo lado... Apesar disso, mesmo dentro do próprio millieu os nomes são muitos, duvido que mesmo públicos interessados e dedicados conheçam a maior parte dos artistas-cénicos experimentais/independentes activos em Copenhaga e Århus. Alguns destacam-se por um sucesso ou outro ou por uma endurance interminável de anos de actividade ou alguma visibilidade internacional.

Neste momento há também uma mudança de geração em curso. Desde que vivo aqui que sinto pela primeira vez que os novos nomes produzem já trabalho com bastante qualidade e que nomes da minha geração de artistas apelam já de forma extraordinária à excelência, permanente irreverência na experimentação como um valor fundamental e maturidade poderosíssimos. Poderia nomear na dança os coreógrafos Tina Tarpgaard da Recoil, Kasper Ravnhøj da Mute Comp., na performance e instalação teatral Signa Sørensen. Destacaria Erik Pold da Liminal.dk e, ainda Stuart Lynch que, com o seu recente espectáculo sobre Artaud, se tornou mais interessante que nunca. Annika B. Lewis que, com os seus jogos sobre género, é cada vez mais excitante. No teatro-físico Kristjàn Ingimarsson com um talento e carisma inegáveis… Ainda, na performance teatral, não posso mesmo deixar de mencionar Claus Beck-Nielsen e o seu extraordinário projecto multifacetado Das Beckwerk –e estou mesmo a deixar muitos de fora! Há muita criatividade mas pouca visibilidade e pouco público, especialmente para a dança.

Outros nomes mais firmados como os de, por exemplo, Lene Boel, Anders Christiansen, Palle Granhøj, Tim Rushton ou Kitt Johnson, Jakob Shocking/Holland House e Kirsten Delholm/Hotel Pro Forma (este últimos neste momento com uma fantástica ópera multimédia sobre Darwin com música da extraordinária banda de Electrónica sueca The Knife) continuam a dar que falar e a circular muito internacionalmente.

Desde que vivo aqui que a Dinamarca sempre me pareceu, de modo geral, indiferente à experimentação nas artes cénicas -tirando honrosas excepções-, apesar dos níveis de educação serem dos mais altos do mundo e os recursos financeiros estarem, para muitos, disponíveis. No entanto, não basta ter meios, ter o desenho de luz mais sofisticado, os designs-de-cena tecnologicamente mais avançados, o último grito em projectores de vídeo e 117 ecrãs a passar sequências de imagens ininterruptamente... Sempre me pareceu não haver muito para dizer, quero dizer, estados de urgência de comunicar absolutos, autênticos, gritos puros, esmagadores como os do Artaud... Após assistir a uma inúmera quantidade de trabalhos de muitos colegas anos e anos a fio, sempre senti um desalento expressável somente por “so fucking what!?”, tornando sempre presente na minha mente também uma passagem de Henry Miller que um dia escreveria que “Todos os dias chacinamos os nossos melhores impulsos...”
Moderação é uma excelente qualidade que os dinamarqueses têm como povo, mas não se deveria reflectir demasiadamente nas artes cénicas… Boa formação pedagógica, académica e artística sempre me pareceram não dever, não poder ser(!), sinónimo de castração de curiosidade, ímpeto e sentido provocacão e risco na arte-cénica em termos formais, estéticos e de conteúdo neste país, pelo contrário... Mas, provavelmente, até os artistas são indelevelmente afectados, mimados, apaziguados, domesticados por este sistema de segurança social, pelo conforto psicológico que esta “boa-sociedade” perfeccionista lhes traz... Mas, se assim for, é inaceitável.


Será que a existência de uma extensa classe média, com boa formação e níveis altíssimos de civismo –há poucos muito ricos e poucos muito pobres nesta sociedade-, terá de forçosamente ser sinonimo de gosto pela fruição da trivialidade e (tal como Le Corbusier escreveria em defesa da obra fílmica experimental de Maya Deren) gosto pela estupidificação gratuita do faz-de-conta/“the stupidity of make-believe”? Será que nos devemos contentar como artistas, como indivíduos, como sociedade só com isto? Deverá ser assim?...

Desde há uns anos a esta parte que surgiu também uma onda de teatro político com um carácter mais interventivo essencialmente pela erosão criada pelos anos Bush/Fogh Rasmussen e pela presença militar indesejada da Dinamarca nos conflitos do Iraque e do Afeganistão. Mas este é um país que tem uma tradição muito pesada de Revista Cómica Teatral, teatro comercial e Bournonville que rapidamente se encosta em formatos considerados mais acessíveis para as audiências… De modo que, nestes anos de crise, é agradável ver que se tem vindo finalmente a consolidar uma comunidade, uma nova geração de criadores genuinamente possuidores de uma impetuosidade singular desejando levar a arte-cénica e criação independente mais além, e marcar-se pela diferença, pela experimentação.
Desde que vivo aqui que movimentos disruptivos underground que abanassem as bases da ‘familien-Danmark’ têm sido quase inexistentes –exceptuando o burburinho criativo criado pela associacão trash-queer Dunst nos últimos 6-7 anos e agora também pela nova Warehouse 9. Uma nova vénue, Nye Tap Scene, está também a caminho com um projecto bastante prometedor.
Sente-se uma onda de nervosidade criativa e de desejo de novos desafios maior hoje em dia, na dança e no teatro independente dinamarqueses... Espero sinceramente que permaneça.

A não abundância de apoios para a produção independente, apesar dos fundos absolutamente astronómicos que se dão a certas produções e a certos artistas, e a tradicional falta de abertura e interesse de venues firmadas pelas novas correntes criativas e novos géneros, tem contribuido para que o público não saiba do que de absolutamente pulsante e novo se passa, e assim se interesse e exija continuidade e crescente qualidade.
Apesar da administração da dança e de outros projectos independentes que temos aqui ser muito profissional e competente, não é suficiente, pois a dominância brutal do entertainment mass-mediático, as campanhas de marketing caríssimas do mainstream e a americanizacão banalizadora e populista do gosto domina tudo de forma esmagadora!

Os musicais ou projectos de prestígio deste regime com orçamentos irresponsavelmente milionários abundam nas vénues mais conhecidas e os sacos de dinheiro que se poderiam ir usando para formação, educação e criação independente vão-se esvaziando... De uma forma geral muitos vão atrás das modas que atraem as massas tentando introduzir a linguagem do musical em todos os géneros na esperança de atrair mais público... Um erro... É deprimente e quase impossível competir com esta situação...

Ainda há falta de visionários: administradores, produtores, agentes com vontade de tomarem riscos e de se baterem por sonhos, gente que se queira atrever a acreditar e a produzir novas visões sem a velha lógica ‘mercantilista’, do ‘quickbuck’, do que dá dinheiro. Encontrar novas vias, novos públicos e novos mercados para a arte cénica independente (teatro, dança, performance) dinamarquesas é importantíssimo e devia ser uma prioridade absoluta nesta nação.
Ouço frequentemente o argumento de que a Dinamarca é uma nação pequena e daí ter a arte-cénica e o público que merece... É um disparate! Sim, somos 5,5 milhões de habitantes, e depois...?? Na Islândia são só 300.000 e o pulsar e irreverência cultural daquela nação envolvendo 90% da populacão é talvez dos mais exemplares em todo o mundo!
Esta mentalidade, este tradicional complexo de inferioridade cultural artificial nas argumentações produzido mesmo por algumas pessoas-chave do millieu, por causa de meras questões numéricas das dimensões da população e do território nacional, penso ser o primeiro problema a necessitar de resolução rápida. A Dinamarca é uma nação com artistas profundamente criativos e capazes, particularmente na área da produção independente. É extraordinário o nível que algumas produções têm, mesmo sem muitos meios. Há que potenciar isso e apostar alto, apostar que os públicos nos seguem e se manterão fiéis. De outra forma, o “brain-drain” de artistas dinamarqueses a radicar-se no exterior não irá terminar tão cedo... Existe neste momento uma sede de novo no público, em todas as gerações, e parece-me maior do que nunca.

Apesar da recente criação de intercâmbios com outros países e cidades-chave, tal como Nova Iorque ou Berlim, a sensação que ainda prevalence é a de uma incompreensiva insularidade, apesar de se estar geograficamente posicionado entre grandes centros nevrálgicos de criatividade europeias, e sentir que as mais inovadoras pontes culturais passam por cima de Copenhaga, entre Berlin e Londres, Londres e Bergen, Amsterdão e Helsínquia, Bruxelas e Oslo, etc…

Só recentemente com o aparecimento da De Uafhængige Scenekunstnere / The Danish Independent Artists Association é que o debate para a necessidade de alterar esta situação se acendeu com mais persistência, seriedade e sentido de estratégia. Os seus representantes parecem querer ser consequentes e têm felizmente bastante capacidade argumentativa e talento na criação de lobbies políticos de interesse. Alguns dos novos membros têm alguma visibilidade mediática por outras razões, pelo que vários políticos no governo e várias autarquias -entre as quais as de Copenhaga e Århus- começam lentamente a estar mais sensibilizados às problemáticas principais que afligem os artistas independentes aqui, essencialmente falta de vénues, falta de fundos e/ou garantia da continuidade de actividade artística. Estou confiante de que algo vai mudar em breve.
Um novo grupo de interesse surgiu recentemente também, Scenekunstnere Uden Scene / Artistas Cénicos Sem Cena... Algo já está a mudar.

Uma mudança urgente para o centro-esquerda nas próximas eleicões legislativas após quase 10 anos de hiperconservadorismo populista apoiado pela extrema-direita é urgente e traria decerto consigo novos estímulos.

A conferência ‘Creating Conditions’, realizada recentemente com convidados dinamarqueses e internacionais organizada pela Uafhængige Scenekunstnere (Associacão de Artistas Independentes), introduziu claramente um sinal de necessidade e vontade de mudança radical em 2 dias de debates e trocas de experiências que envolveram políticos, organizações, artistas, festivais escandinavos e europeus – enfim este assunto daria outra entrevista...
Orgulho-me de fazer parte deste novo movimento de artistas independentes dinamarqueses.

Há também o projecto Kedja que reúne com frequência artistas e responsáveis nórdicos/bálticos da dança que se continua a desenvolver e a solidificar.

No final do Verão de 2009, num enorme complexo de edifìcios que a Carlsberg está a abandonar, um centro gigante de dança com 9.500m2 – os Dansehallerne, o maior a nível nórdico-, com espaço para 2 salas para a venue Dansescenen e 1 companhia a Dansk Danseteater, para estruturas organizativas/administrativas diversas de outros grupos e companhias assim como para o Centro de Documentação da Dança dinamarquês, novos estúdios e salas de ensaio para a Dansens Hus, etc-, foi inaugurado em meados de Agosto culminando vários anos de intensa, notável e competente actividade de alguns dos responsáveis pelo sector da dança dinamarquês. A nova vénue Nye Tap Scene, também vai ter as suas instalações neste enorme complexo…
Vamos ver como se gere aquela nova grande casa da dança, se se geram novas vias/modelos que consigam atrair os públicos para o gigante Dansehallerne/Dance-Halls... O mesmo com Nye Tap Scene… Seria terrível se se tornassem ‘elefantes-brancos’...
Não só a dança mas também os inúmeros e excelentes(!) artistas cénicos independentes transdisciplinares que trabalham com dança e performance nas charneiras dos géneros e das estéticas beneficiariam muito com esse estímulo, se apoiados pela paixão de produtores visionários conscientes de que pesquisa artística nas artes performativas pode não funcionar –que os artistas podem falhar- que a arte cénica é essencialmente investigação de novos formatos de comunicação artística e não somente entretenimento trivial ligadas a instituições estabelecidas, fazendo disso a motivação que os faz trabalhar e querer tentar novos modelos de produção que fomentem a maior liberdade artística possível, novas visões artísticas, novas formas de encontrar e inspirar audiências!

Voltando à tua questão inicial: o meu trabalho não é, portanto, neste contexto, conhecido na ‘nação-cultural’-Dinamarca, mas é visto com respeito e consideração por colegas e público e levanta quase sempre algumas cordiais ‘trocas de impressões’, algum debate. Os críticos parecem ter mais dificuldade em perceber ‘what am I up to’, são extremamente conservadores :) estão certamente ofuscados pelo glitter de todos os musicais à deriva nesta cidade... Além do mais, devo acrescentar que a critica aqui encontra-se também em dificuldades conjunturais que se adivinham quase como uma tendência crónica: os jornais, ou retiraram o espaço de escrita sobre artes cénicas e a sua visibilidade, ou excluem totalmente a crítica das suas prioridades, devido a uma crise continuada no sector da imprensa escrita. Hoje em dia alguns dos mais importantes jornais de tiragem nacional não dão nenhuma prioridade às artes-cénicas o que é uma situação inaceitável, insustentável.

Posso-te dizer, porém, que uma das mais simpáticas afirmações que se escreveram sobre mim na imprensa dinamarquesa numa crítica de 1 ou 2 estrelas no jornal Politiken a propósito de uma das minhas obras há uns anos atrás foi a de que, apesar da minha disforme e inconstante procura de sentido na arte e na vida patente na minha obra, que eu seria talvez dos poucos coreógrafos a nível escandinavo que, com sentido de consequência, de obra para obra, me atrevia séria, destemida e intrepidamente a tentar encontrar novos caminhos para a coreografia como arte. Não é uma citação, e não sei se o afirmado efectivamente confere... Duvido, com toda a humildade... Há coreógrafos extraordinários nos países nórdicos –a Finlândia está por exemplo a viver um autêntico boom de criatividade e de altíssima qualidade...Mas, definitivamente, esta foi talvez das poucas vezes que algum crítico se deu tempo ou talvez tenha tentado perceber algo mais e ver mais além do que a mera superfície das coisas numa obra minha.

Lembro-me que em Portugal, um crítico do Público um dia escreveu que se contavam pelos dedos de uma mão –e ainda sobrariam dedos, os artistas cénicos que na altura teriam capacidade no nosso burgo para criar uma obra com a amplitude e a dimensão épica do meu solo-premiado “Brado –ou Mishima em Retratos de Vidro Múrmuro” em 1995/1997, um trabalho produzido pelo CENTA/Graça Passos, após uma residência solitária de 5 meses em Vila Velha de Ródão.
O tom aqui foi o mesmo, o do do crítico dinamarquês, quero dizer...
Só acredito quando forem mais a escrever do mesmo modo. E eles criarem um clube de fãs! ( lol )

Enfim... deixemo-nos disto...
O importante realmente é sempre o mais difícil: trabalhar, continuar sempre a trabalhar e a melhorar a sua linguagem, seguir o caminho que se tem de seguir com paciência, perseverança, sentido de consequência e, sempre que possível, pelas vias do inatingínvel, criando beleza –seja lá o que isso for... O resto, é o circo do costume... Não importa.


10. Como é Portugal visto da Dinamarca pelos teus "olhos"?

O povo “mais feliz” da Europa, os dinamarqueses –segundo os últimos estudos da UE, quando pensam ‘sul-da-europa’ não pensam normalmente em Portugal. O mapa mental da Europa Ocidental aqui pára habitualmente na Andaluzia.
No entanto, penso que os dinamarqueses vêem Portugal com simpatia, sendo a percepção mais comum a de que é um país pobre da União Europeia com dificuldades económicas e políticos corruptos ou sem talento, mas onde a população é extremamente gentil e onde se podem fazer boas férias... Fico sempre surpreso pelo desconhecimento que há dos nossos excelentes vinhos, por exemplo. A Dinamarca é uma nação produtora e consumidora de cerveja. De modo geral, há muito pouca informação sobre Portugal nos media... Exceptuando quando o Cristiano Ronaldo faz uma travessura ou marca um golo... Ou então os nossos eternos fogos florestais...

Verifico que muitos dinamarqueses, ao terem experienciado Portugal e os portugueses, se referem a nós e ao nosso país com enorme respeito e admiração, que nos colocam acima de qualquer nação ou população europeia, e que apreciam o facto de sermos mais suaves e menos orgulhosos que os italianos, os espanhóis, os franceses e os gregos... Muitos retornam com bastante frequência, mais do que a outros destinos no sul da Europa.

Na verdade, apesar das diferenças culturais –particularmente na forma como se encara e dá valor ao ‘trabalho’, eu penso que os dinamarqueses e os portugueses têm em comum o facto de serem povos muito gentis, cordiais e sorridentes e terem um fundo de enorme bom senso. Talvez por isso voltem repetidamente...

O dinamarquês encara o trabalho de forma muito diferente do português: auto-estima e mais-valia aqui é baseada nos bons resultados, disciplina e competência. São traços claros da mentalidade... Em Portugal, a mentalidade geral é a de que quanto menos trabalharmos e mais cunhas metermos melhores pessoas somos e melhor subimos na consideração dos outros! Muitos dinamarqueses descrevem sorridentes este traço do nosso carácter como ‘o charme português’...
Eu não comento.

Reconheço que, quer há 15 anos como agora, a população portuguesa vive uma situação extremamente difícil... O tom dos debates parecem ser os mesmos. Presumo que os conteúdos das discussões também... Os assuntos parecem-me sempre irremediavelmente os mesmos...

Dominada pela tirania da incompetência, do clientelismo, da mediocridade, da repressão de traidores morais, estou convicto de que a população portuguesa se encontra num estado passivo-agressivo de depressão geral e desencanto notavelmente profundos. Quando se fala em trabalho, política, dinheiro, direitos e deveres, as pessoas falam de forma claramente agressiva mas como se não se importassem, ou então de forma contida, magoada e amarga, como se fossem indiferentes ou se se quisessem conformar, os olhos baixam, as cabeças abanam, muda-se de assunto porque eu estou de visita... Estes são detalhes sobre os quais os meus olhos não vêem os dinamarqueses a reflectir, naturalmente...

Aqueles que conheço e que estão mais informados sobre o nosso país reagem com enorme indignação a este estado podre vitalício de ser das coisas na nossa república lusitana, e ao nosso tradicional conformismo...
De qualquer forma, um estado de coisas que nenhum dinamarquês, de modo nenhum, permitiria se tornasse ‘status quo’ na Dinamarca.
Após uma visita, volto quase sempre triste. Por isso não consigo ficar mais de 10 dias de cada vez.

A Dinamarca não é nenhum paraíso, longe disso –há muita solidão, as taxas de suicídio são altas, a radicalização do debate sobre estrangeiros tornou-se simplesmente tenebrosa e absolutamente vergonhosa – como se muita gente sensata na política dinamarquesa tivesse desistido, deixando a cada vez mais poderosa extrema-direita dominar toda a agenda-, mas não penso voltar a viver de novo em Portugal, especialmente agora que tenho família...
Talvez trabalhar esporadicamente em projectos artísticos futuramente, se no meu contributo ou colaboração os meus colegas portugueses virem alguma relevância, mas só nesse contexto.


11. Uma mensagem que gostavas de deixar aos leitores do meu blogue.
Espero que lêr a tua entrevista lhes sirva para alguma coisa. Espero que lhes tenha trazido qualquer coisa de novo.
Mais uma vez, muito obrigado pelo teu interesse, Stran Ger.


Nakskov, 27 de Janeiro de 2010
Fotografias (por ordem de aparição):
1)L-O-B-O
2)L-O-B-O (photo credit: Per Morten Abrahamsen)
3) VOYEUR1 A dream within a dream (dancer: Medde Vognsen; photo credit: Cecilie N.Brene)
4) L-O-B-O 01 - kopi
5) unCUT3 (photo credit: L-O-B-O)
6) LOBOTOMI (press-photo graphics by Max Otto)
7) THE CUT (photo credit: L-O-B-O)
8) unCUT1 (photo credit: L-O-B-O)
9) unCUT2 (photo credit: L-O-B-O)
10) VOYEUR4
11) ØM+[Sore]
12) VOYEUR2 Love me tender Lyrik (dancer: Medde Vognsen; photo credit: Cecilie N. Brene)
13) VOYEUR4
14) L-O-B-O (photo credit: Max Otto)

2 comentários:

LOBO disse...

Excelente!
Tusind Tak / Muitíssimo obrigado, Stran Ger!

Stran disse...

Obrigado pelas tuas palavras!

Eu é que te tenho de agradecer e pedir desculpas pela demora!

Um forte abraço
Stran